"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."
13 de outubro de 2008
Voltando a passar pelo coração
30 de setembro de 2008
Quanto pesa uma interrogação
16 de setembro de 2008
Pra dançar diferente
4 de setembro de 2008
Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração
"Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem, não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por encontrar-nos e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem, mas grande, muito haverá de ser, se ao nos matar nos nasce."
a linguagem da arte
"Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova York. Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma câmera nas mãos, mas disseram a ele que era fácil. - Você olha por aqui e aperta ali. E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmera e olhou por aqui e apertou ali. Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope. Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu."
a noite
"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, pediria a ela que fosse embora, mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta. Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas. Dispa-me. Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo".
Os contos acima foram extraídos do Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano. Foi a última vez em que eu me apaixonei.
.abraço a.bra.ço sm (de abraçar) 1 Ato de abraçar; amplexo. 2 Bot Cirro, gavinha. 3 Arquit Entrelaçamento de folhagem lavrada em volta de uma coluna. 4 Aderência, compressão, fusão.
tão Zé
"Danç-eh-sá Ao Vivo" - o álbum que celebra o fim da canção como possibilidade artística. Ícone das invencionices musicais, Tom Zé nos ensina com quantas rugas se faz uma vontade de inovar. O disco é uma continuação de “Dança dos herdeiros do sacrifício”, de 2006. Na releitura - se é que chamá-lo assim não é reduzi-lo a muito menos do que ele é - presenciamos a transformação das antigas canções e a valorização da música despida de letras. É a nudez das músicas bem comportadas. A partir das raízes brasileiras na cultura africana, o nosso baiano de Irará constrói a possibilidade de uma canção ser feita apenas com sons. Por isso, neste disco, o lirismo dá espaço para barulhinhos, onomatopéias e interjeições. Mas sem deixar que uma música assim tão sintética seja tomada pela plasticidade. Aqui, quem guia a cadência são os tambores, percussões e os neologismos embrulhados na voz firme de Tom Zé. Como ele mesmo diz, "é a falência do dicionário, a esculhambação dos verbetes". A idéia surgiu a partir de uma pesquisa que a MTV fez em 2005, que apontava a obsessão dos jovens pelo hedonismo, consumismo e a música eletrônica. Por isso, o álbum nasce como um convite para um diálogo. É uma rememorização constante de onde viemos. A afirmação invariável de que somos uma mistura de povos. E mesmo que Tom Zé não seja um artista engajado (ô palavrinha feia) ele quer mostrar para os jovens a responsabilidade que eles têm num país de origens tão lutadoras. Cada título do CD tem o nome de uma revolta que conta a história dos escravos e antigos povos revolucionários brasileiros, como Revolta Queto-Xambá ou Revolta Malê. É uma tentativa de narrar a História do Brasil apenas com sons. Tom Zé, ao mesmo tempo prosaico e inventivo, evoca o astronauta libertário que criou em “2001” para percorrer o panorama da música digital influenciada pela tecnologia. Ele invade, então, o território que lhe era estranho: a internet. Quando perguntam sobre tal experiência, ele responde: “sinto-me como se saísse da Idade Média diretamente para uma estação orbital, como no filme de Kubrick". Atento, ele conhece os efeitos da passagem do tempo na música. Se o disco celebra o fim da canção, Tom Zé mostra que todo fim significa a possibilidade de um outro começo. Assim, a canção, tal como nos foi apresentada até então, acaba, mas se reinventa como sinal dos novos tempos. As letras das suas canções têm o começo geralmente pautado na poesia concreta. Aqui, no entanto, o cantor anula o intermédio das palavras e vai direto para o concretismo sonoro. Uma ilustração disso é a faixa Triu-Trii, que pelo excesso de similaridades sonoras, parece mais um exercício de fonoaudiologia. É a habilidade com os intrumentos convencionais e o engenho para tirar som de liquidificadores, máquinas de escrever, rádios, enceradeiras e garrafas que fazem de Tom Zé o louco mais sensato da música brasileira. Mesmo que para muitos este álbum pareça somente o barulho gritante de um velho decrépito, as onomatopéias de Tom Zé ultrapassam a etimologia medíocre para dizer muito mais que as palavras. Cada uma das 8 faixas do CD são divididas em três momentos: “viver”, “sofrer” e “revoltar”, uma referência ao Eclesiastes bíblico, espécie de compreensão do ritmo da existência. Tom Zé mostra que toda mudança é dialética: uma coisa deve sumir para que outra apareça, daí a importância de entendermos todos os tempos. Além disso, o próprio título do disco não economiza ironia para mostrar que para bom entendedor, mei pala bas. Esse disco chuta a repetição e aniquila o mais do mesmo. É Tom Zé, novamente novo, como sempre.
(matéria para Revista Ponto e Vírgula da Web-Rádio Virtual/Unesp, programa Sintonia)
23 de julho de 2008
Café Santa Cruz

(...)
"Beijaram-se muito naquela escura taberna. Eram novos. Mas acreditavam excessivamente na colisão do afeto - e por pouco não os apedrejaram, alegando, por exemplo, que é proibido o amor a quem manifeste sintomas inequívocos de estar apaixonado. Este país, de fato, é um cemitério sem saída."
- manuel de freitas é poeta, tradutor, crítico literário, editor e diretor da revista portuguesa telhados de vidro.
Revista Piauí, ed. 22.
arte: Maikon Nery
Se não quer sentir o horrível peso do TempoQue pesa sobre os seus ombros e o esmaga,
Embriague-se sempre.
Com quê?
Com vinho, poesia ou virtude.
Com o que quiseres.
Mas embriague-se.
-baudelaire
9 de maio de 2008
A Paixão Segundo G.H
Fina massa para paladares refinados

Assim como o projeto paralelo Orquestra Imperial, formado por músicos em rotação, como Seu Jorge, Rodrigo Amarante e Thalma de Freitas, 3 na massa surpreende pela diversidade de composição e influências diversas. A “massa”, como sugere o nome, é moldada pelas mãos hábeis dos músicos da Nação Zumbi, Pupillo e Sucinto Silva, além do músico paulista Rica Amabis, do grupo Instituto. A intenção era compor uma mistura que desse novo sabor à música pop-eletrônica nacional, abusando de barulhinhos e efeitos sonoros diversos.
O recheio é formado pelas composições de Rodrigo Amarante, Lirinha, Jorge du Peixe e outros. Suas letras salpicam o refinamento das canções. Recheadas de segredos amorosos, frustrações e experiências típicas do universo feminino, elas dão o tom da inocência, mas sem banalizar. Já o tempero fica por conta das participações femininas mais que especiais, que juntam nomes como Thalma de Freitas, Céu, Leandra Leal e Nina Becker, entre tantas outras. Nessa mistura, há ainda um contato intercontinental: Nina Miranda, a vocalista brasileira da indefinível banda inglesa Smoke City, também dá a sua contribuição, na faixa “Morada Boa”.
3 na massa é uma colagem musical; utiliza influências externas, mesclas de hip-hop e jazz, sem negar o encantamento da boa música brasileira. Depois de estrear no My Space, eles lançam seu primeiro cd, "Na confraria das Sedutoras", confundindo qualquer um que possa pensar em colocar rótulos em sua sonoridade. A textura do disco é marcada pelas distorções eletrônicas combinadas com o baixo e a bateria dos músicos da Nação Zumbi. Essa combinação entre o eletrônico e os instrumentos tocados cria uma harmonia sonora digna de se ouvir com os olhos fechados.
O peso dos metais convive perfeitamente com as distorções, como em “Sem Fôlego”, interpretada por Lourdes da Luz, da banda paulista Mamelo Sound System. No início da canção, nos acostumamos com os efeitos eletrônicos; quando de repente, os intrumentos tocados invadem a música, além do vocal marcante e da levada hip-hop, sem que isso cause estranhamento. Neste álbum, o inusitado torna-se comum, e a naturalidade guia a cadência das músicas.
Definir seria limitá-los: 3 na massa transcende os limites da música facilmente cantarolável. A sensualidade das vozes femininas provoca sem vulgarizar. Exemplo perfeito disso é a faixa “Certeza”, cantada pela atriz e cantora Leandra Leal; sua narração em francês nos faz visualizar uma lolita francesa, e é digna de fascínio.
A maior beleza do disco está nas diferenças entre uma faixa e outra; em uma, um molho picante e fervente; em outras, uma sutil pitada de açúcar. Destaque para a inocente “Tatuí”, que na voz de Karine Carvalho lembra uma frustrada paixão adolescente; ou ainda para a sensualidade agressiva de “Pecadora”, embalada pela voz fantasiosa de Simone Spoladore. Há faixas em que a canção adquire tom de narrativa, como em “Certa Noite”, na voz de Alice Braga.
Esses contrastes fazem do disco um delicioso aperitivo para todas as horas. 3 na massa tanto poderia ninar o sono de um bebê, quanto servir de trilha sonora a um lascivo caso de amor. A consistência dessa massa está na criatividade do grupo, que é, antes de tudo, uma conjugação perfeita do paladar musical de cada integrante.
A extrema ousadia embrulha essa mistura sonora em papel especial, e o presente fica para os nossos ouvidos. Nada mais agradável.
22 de julho de 2007
Imaginação, imagine ação.

- Da percepção e outras coisas que só se vê quando se olha pra dentro.
Não havia um canto sequer ileso da má conduta do ser humano, e nada que fosse fitado naquele momento seria completamente limpo. À parte isso, as pessoas pareciam não se importar com o acúmulo de descaso nas esquinas e desfilavam pelas calçadas prestando atenção em seu próprio umbigo. Despreocupação desvairada, desprovida de qualquer humanidade. As ruas se cruzavam, mas as pessoas, não. Nada estava interligado. Uma esquina era totalmente alheia à outra. O poste mijado por bêbados cambaleantes era totalmente alheio ao outro poste enfeitado por grafites e mosaicos. Era cada esquina por si, cada poste por si, cada um por si, e as putas do Parque paqueravam tranqüilas enquanto o menino comia pipoca. Constatação inusitada, que me valeu alguns minutos de estranheza. Mas sentia-me bem apenas por notar a grandiosiodade que parecem ter as coisas quando ainda são inéditas. Depois vai diminuindo, fenecendo, até se tornar algo tão pequeno que sempre pareceu estar ali. É sempre assim. Os barulhos se espalhavam no ar como pedaços de um morango num liqüidificador e iam se instalar justamente na minha cabeça, enlouquecendo-me. Profecias, promessas, premissas, discursos daqueles que precisavam gritar para não parecerem loucos sozinhos: partilhar a loucura com o mundo e enlouquecê-lo. "Filhos-de-uma-peste", dizia a mulher com poucos dentes e pouca simpatia quando os transeuntes viravam-lhe a cara. Talvez a falta de simpatia fosse ocasionada pela falta de dentes, mas havia naquela expressão e naquele falar-quase-gritando uma mistura de revolta, tristeza e desdém que as pessoas continuavam a não ver e não escutar - se é que não fingiam uma das duas coisas. A cena não foi vista pela primeira vez, nem pela segunda, muito menos pela terceira, mas foi vista pela vez em que eu me envolvi. Foi quando constatei que se pode ficar subnutrido de humanidade, e essa constatação foi triste. O que pintava uma interrogação no entendimento era a contradição. Imensas construções inundadas por dinheiro, que é pra burguês nenhum botar defeito, e a cidade inundada de sujeira, que é pra mendigo nenhum tirar proveito - "êta, globarbarização". De repente, o lugar todo olhou para mim, como se quisesse que eu olhasse para outra direção e focasse minha atenção em alguma coisa feliz, afinal, havia beleza também, por todos os cantos, beleza demais. Na espontaneidade, na descontração, na intenção de inundar uma estação de metrô de linguagem, música e poesia; na capacidade de viver o momento, nas cores das coisas que aconteciam ao mesmo tempo. O batuque acontecendo ali e o comércio barulhento acontecendo lá. Uma despreocupação diferente da anterior, desprovida de qualquer maldade. Arte exposta nos muros, manifestações culturais que falavam por si mesmas. Arte barata, que diverte mas não basta. E arte abstrata, que invade e não maltrata. Era como uma colcha de retalhos de tudo o que se pode chamar de cultura: cada um escolhia a que melhor lhe cobrisse. Não é que tudo ali fosse bonito, mas o que era bonito era tão bonito que fazia o feio se livrar de uma parte da feiúra. E o sorriso se fazia soberano - "a única salvação do ser humano é a alegria".

13 de julho de 2007
Minha cabeça já esteve mais nas estrelasAgora eu gosto mesmo é de pés
Sentir o pulsar do chão
Adivinhar o encanto
Seguir pelos cantos
Entoar num canto
O descuido que é viver
Deixar-me estar assim
Simples como tudo enfim
Que a complicação só há
Se a gente deixa ela estar
Saber que a vida é coisa indecifrável
E não saber, enfim, de nada
Mas desconfiar de muita coisa
Que os anos nos tragam rimas,
Não rugas.
5 de julho de 2007
A fatia mais doce

Eu cronico
Tu cronicas
Ele crônica (II)
Logo hoje, hoje mesmo, que me perguntei por onde andava aquele sorriso. Despontou sua voz do outro lado da linha, ávida e urgente. E eu, de súbito silêncio telefônico, pronunciei as primeiras palavras.
Perguntei dos últimos acontecimentos, do final de semestre, dos projetos engavetados, do cachorro. Ele perguntou da vida como andava, dos bares, das novidades, e mais tarde dos planos para preencher aquela noite. Disse-me com certa melancolia estudantil que corria sérios riscos de enlouquecer se ficasse estudando mais uma noite, e sugeriu que fizéssemos alguma coisa. Checou os cinemas, os teatros, os bares, e não havia nada além de peças teatrais infantis do outro lado da cidade, filmes hollywoodianos que ofendem a inteligência e músicos estranhos que atraem multidões igualmente estranhas; isto somado ao fato de que os locais em questão não foram projetados para comportar multidões. "Não temos balão de oxigênio". Decidimos por usufruir o seu imenso acervo cinematográfico, que comporta desde os clássicos até os excessivamente modernos. Optamos pelo filme que assistimos quando nos conhecemos, fizemos promessas de não cometer suicídio coletivo pós-filme, e combinamos o horário: 10 horas. Eu tinha cerca de uma hora para chegar a uma conclusão cabível e humanamente aceitável sobre o por quê dessas coisas acontecerem comigo, e dessa maneira específica, essa que me faz sentir totalmente impotente frente o desenrolar do meu próprio enredo, sem sequer escolher os personagens da trama. Naqueles quinze para as dez da noite, eu era toda calça jeans, camiseta, par de tênis e bala de menta, carregando um pacote de chocolate para adoçar o filme. Fui pelo mesmo caminho daquele dia, para diminuir as chances de me perder. Me perdi. "E eu pensando que me lembrava de todos os pormenores daquele sábado", lamentava para meus botões. Acabava de constatar: não lembrava. Fui parar numa rua desconhecida que me lembrou alguma cena de livro. Vi de longe um homem fechando o portão de uma casa e fui logo perguntar a ele o quão longe eu estava da rua Oliveira-alguma-coisa (sou péssima com explicações), ao que ele, todo bonachão, chamou sua mulher que estava lá dentro, afinal, como disse o tal homem "mulheres costumam ser mais sensatas". Ele e o filho me olhavam com cara de paisagem, como que com vergonha de não saberem explicar uma coisa tão simples para quem mora ali. Chegou a mulher, e antes que eu dissesse qualquer coisa, foi logo me acompanhando até a rua que ela suspeitava ser a que eu procurava. "Eu sei como é, sempre me perco lá pelas bandas de Jardins, aqui estou acostumada", ela me dizia com tanta simpatia que fiquei com vontade de dar a ela o chocolate que guardava na bolsa, mas me contive. E ela continuava: "...mas é bom, assim já trato de perder as calorias da pizza que comi, e não me sinto culpada". Duas quadras depois e já pude avistar a simpática e familiar casa amarela. Agradeci com muitos sorrisos e subi a rua respirando forte. Logo em frente, um rapaz e uma moça, conversando. Por um momento, pensei em cumprimentar, mas eles anteciparam os meus pensamentos e me lançaram um simpático aceno. Constatei minha excessiva cara-de-pau e ri em pensamento. Chamei, e já fui prontamente respondida - "Ei!" - Eu ri de novo, mas dessa vez não em pensamento. Ele passou da porta para o corredor numa rapidez que eu nem tive tempo de preparar uma cara apropriada ou disfarçar o meu calor e meu fôlego escasso - "Filho-da-mãe", pensei. Foi abrindo o portão sorrindo, tudo muito rápido, e me recolheu para dentro num abraço apertado cheirando a banho recém-tomado. Ah, era bom ver aquela casa de novo. Supliquei por água e fui cumprimentar a Tina - "Boa noite, pretinha!": era o cachorro mais humano que havia, com imensa sinceridade no olhar e latido honesto. Perguntei pelos outros que também viriam, mas vi que seríamos nós dois apenas. Lancei um olhar demorado por todo o ambiente e notei a descontração: as almofadas coloridas e as partituras espalhadas pelos cantos conferiam ao lugar um ar de "sinta-se à vontade". Puxei uma cadeira entre as tantas que enfeitavam a sala e, entre um assunto e outro, pude reparar no seu sorriso escancarado, significando um muitíssimo bom humor. Tratou de pegar cerveja na cozinha, e voltou se justificando, "Só uma está gelada, por enquanto". Sentamos e “colocamos as mentiras em dia” – como costumávamos dizer – e, como de costume, me senti burra quando li os seus trabalhos da faculdade espalhados pela mesa. Metodologia pra cá, lei não-sei-do-quê pra lá, e os estudos todos newtonianamente organizados numa pasta azul-piscina. Me mostrou as várias prateleiras entupidas de vinis, e em meio àquela gigantesca organização, me deparei com todos os tipos de sons, passando pela prateleira entitulada "tranqueira", onde ele acomodava as cafonices sonoras da vida. Alguma delas tocava na vitrola, e ele se sacudia histericamente, dizendo que seus filhos e netos ouviriam aquilo um dia. O riso era constante, tinha me esquecido do quanto somos exatamente nós mesmos quando nos juntamos. Aquele falar onomatopéico e estendido e o modo de balançar a cabeça em sinal de negação já eram meus velhos conhecidos; o que tinha ali de novo era o efeito interessante que aqueles olhos azuis produziam em mim, e é engraçado como isto dito assim parece banal. Falamos de tudo, chegamos até a planejar um experimento cientificamente monitorado para testar os diferentes sabores de cerveja. "Esta aqui não é boa, mas não é um clássico da ruindade, fico grato apenas por sua existência etílica", e brindava no ar, batendo num copo imaginário. Mas eu não conseguia me desligar do azul, era magnético. Depois de alguns desvios de planos e resistência por parte dele - "não quero amargurar os ares"- arrumamos o sofá e as almofadas, e nos resumimos à meias e travesseiros embolados. Combinamos que em alguns momentos falaríamos algumas bobagens, só para não chorar. Joel e Clementine conversando de lá, e nós de cá, imaginando como seria se cada cena do filme estivesse acontecendo com a gente - "o que faríamos?". Como eles eram perturbados! Uma perturbação beirando a insanidade, mas eram um pouco de nós, em vários momentos, embora a loucura de Clementine ofuscasse a normalidade de Joel. Parecíamos dois críticos de quinta achando defeito em cada detalhe (de modo que ficava impossível deixar-se envolver pela história dramática e ter desejos suicidas a posteriori) e, alguns risos mútuos depois, já éramos dois seres esparramados entre as almofadas com os braços entrelaçados. O filme pela metade, e tudo estava perto; foi inevitável o encontro dos rostos também. Se fosse diferente, perderíamos toda a naturalidade, e a perda da naturalidade entre duas pessoas é quase um crime. Os beijos e os abraços oscilavam entre as risadas e as conversas pseudo-filosóficas. O assunto foi abrangente, chegamos a temas perigosos. Ele me contou das decepções passadas, da sua falta de capacidade para adotar a solução mais simples, dos sumiços que são necessários, vez ou outra, e da dificuldade de se ser homem num meio tão gay. "Minha vida é complicada, sabe...", me dizia de tempos em tempos. "Eu fico meio amargo, às vezes, e não quero envolver ninguém nessa minha amargura, ela é só minha." E eu ouvindo, estática como um poste. Esparramei naquela sala todas as minhas teorias sobre as pessoas, sobre os vários de nós em nós mesmos, sobre os níveis de conhecimento que se pode ter sobre alguém, e só então me ocorreu "O melhor está nas entrelinhas", como dizia Clarice. Acho que se trata exatamente disso: o melhor de nós está nas entrelinhas, não no que está exposto, escancarado, óbvio. "Você é legal pra cacete!", dizia. Era bom trocar delírios e conflitos internos; mas aí, nos lembrávamos de que era sábado, de que estávamos ali, de que as coisas só doem porque nós queremos (vide a tão famosa frase drummoniana "a dor é inevitável, o sofrimento é que é opcional") e mandávamos tudo para o inferno, resgatando os beijos, abraços, assopros e suspiros de onde estes tinham parado. Éramos dois bobos discutindo as possibilidades de estar só e em companhia. Nunca o entendi tanto: ele é mais do que livre, precisa de espaço para se estender, e conquista amigos que de longe entendem tudo isso. Foi então que comecei a entender que nas vezes em que sofri, foi por esperar pessoas incondicionais - embora não acredite em coisas incondicionais, tampouco em coisas altruístas, afinal, até mesmo a moça que me ajudou a chegar na casa dele, não o fez por mim, mas por ela. Por ela, e por sua pizza. A hora avançava e eu tive que ir, esse momento foi dolorido, eu não queria ir. Estávamos sentados com as costas grudadas e as mãos dadas, como naqueles filmes em que amarram o mocinho e a mocinha de costas um para o outro. Era digno de uma fotografia. Abrimos o portão, ele lembrou de caçar uma camiseta qualquer, e me acompanhou pelo caminho, embora muito lhe custasse abrir os olhos naquela claridade de dia amanhecido. Percorríamos aquelas ruas com a calma de um canto gregoriano, desviando dos raios teimosos do sol que insistiam em nos cegar, . Ele ria, e me dava o perfil completo de cada morador dali, acrescendo algumas mentiras pra dar mais complexidade. Avistei a já lendária “Mirtes”, de quem ele já me falara tantas vezes e que de longe podíamos ver, no bar da esquina, de costas, vestido decotado, lavando a louça dos bêbados.
- E eu pensando que ela era centenária!
- Imagina! Ela está toda conservada.
- Já pegou?
- Não... Mas só porque ela não quis.
Muitas risadas. Não queria dizer nada tão clichê quanto pedir para não desaparecer por aí, não era necessário, e de fato não foi dito. Ele me abraçou. "Me desculpa pelo excesso de mim mesmo?" - me entregando uma flor amarela do canteiro mais próximo - , ao que eu respondi "Concordo com a Clarice", e ele sorriu. Não era um sorriso de frente, nem era um sorriso de lado, era o presente livre de passado e sem obrigação de futuro. Uma história que não devia explicações: era impunemente doce, e leve como a flor com cheiro de baunilha que eu segurava nas mãos. "Não desmaie no caminho, esse cheiro é tóxico". Boas lembranças são doces pedaços de vida.
3 de julho de 2007
"Viver é um descuido prosseguido"

E a saudade? o aperto bem no meio do coração, a sensação de ter esquecido como é sorrir mutuamente, a vontade de ver passando pela janela quando só se ia fechar a cortina, e sair correndo fazendo palhacice, a vontade de encontrar por aí, casualmente. Mas não, há a falta. E a ausência? o buraco, o tracejado reticente de mim mesma, a lacuna que só me há quando você não está. Mas depois torna tudo a se repetir. E nós?
Os apertos e rodopios, as cantorias e as artimanhas, os sabores e os amores, os doces e os levemente amargos, os abraços e os afagos, o apego, o sossego. E aí volta a ausência, soberana, em passinhos sorrateiros, fazendo-se por despercebida, levando um tanto de nós, e trazendo um pouco mais de nós, muitos nós, que custam a desatar. Ela nem sabia o que era que chegou invadindo, e seguiu colorindo. Não importa: pra muita coisa importante falta nome.
29 de junho de 2007
Laurêncio

Eu cronico
Tu cronicas
Ele crônica.
A vida, às vezes, nos ensina com quantos sonhos desperdiçados se faz um rosto triste.
Laurêncio tinha um desses rostos carregados de história, mas que, na verdade, são assim tristes por carecerem de grandes histórias; olhar para Laurêncio era como ver o que acontece quando a vida passa e a gente não se dá conta. Tinha olhos sinceros e sorriso apagado. Os cabelos castanhos mal cortados e raros naquela cabeça esférica lhe conferiam aparência desleixada. Os olhos também eram castanhos, e não se fixavam em nada que fosse realmente digno de ser fitado. Encimando a boca, um castanho bigode recém-cultivado, do qual orgulhava-se feito louco. A pele não era clara, nem morena: era castanha. Laurêncio era um sujeito castanho. Nem feio, nem bonito, e vez ou outra até atraía o olhar de alguma moça que cruzasse com ele na calçada, mas Laurêncio nunca notava; vivia sempre mergulhado em sua própria existência. Laurêncio era mirrado. Era mirrado por opção, não por faltar o que lhe nutrisse. Comia muito devagar e pouco, e isso devia-se ao fato de comer em companhia de si mesmo, fazendo palavras cruzadas ou até mesmo contando os azulejos da parede da cozinha, para não parecer que o silêncio o invadia por inteiro; Laurêncio não sabia que o silêncio trata-se de nós mesmos, só que demais, não sabia que o silêncio é o excesso da gente. Ou talvez soubesse, e por isso mesmo temesse deixar-se silenciar por completo. Laurêncio faltava a si mesmo, e estar em sua própria companhia era, em essência, como estar na companhia de alguém com quem não se tem nada em comum: um estranho. Não tinha assuntos consigo mesmo; os doces sonhos de outrora cresceram e verteram-se em vítimas da realidade nua e crua, a simpatia e o bom humor o haviam abandonado quase que completamente – exceto nas vezes em que se divertia observando os vizinhos sob as lentes de um binóculo velho - , e quanto à juventude, ah, esta já estava há tempos camuflada em seus trajes cinzentos e dentes amarelados, ambos regados a tabaco barato. Conversar consigo mesmo era como travar uma luta sem fim entre o que deveria ter sido no passado e o que era no presente. Laurêncio era justamente o que não deveria ter sido. Assim, preferia rechear os momentos solitários com passatempos vazios, evitando que seu eu frustrado resolvesse lhe questionar. E além do mais, detestava brigas. Laurêncio era um sujeito pacífico, tão nocivo quanto uma borboleta que pousa despretensiosamente no primeiro muro que lhe aparece. Ocupava no mundo nada mais que o espaço de seu próprio corpo, e retirava deste apenas o oxigênio necessário à sobrevivência, e alguns aprendizados, como não poderia deixar de ser.
Era muito curioso, confuso de si e do mundo, mas não lhe apetecia passar mais que cinco minutos digladiando-se com questões de metafísica filosófica; a isto, bastava um copo de tequila e uma tragada num cigarro, para que a confusão mental logo se dissolvesse. Mas, à parte isso, gostava de ler, e mantinha alguns tortos hábitos de leitura.Abominava livros de leitura pesada, densa, estendida. Preferia as histórias em quadrinho baratas de banca de revista, e os versos repletos de lugar-comum contidos em livros de citações, frases e pensamentos. Laurêncio era de fato um homem de frases e pensamentos - alheios, mas ainda assim frases e pensamentos. Sempre que estendia conversa com alguém nos bares ou botecos, acabava logo com a discussão citando um Sartre, um Sócrates, um Shakespeare, este último, aliás, não sabia pronunciar sem que ficasse parecendo uma onomatopéia ou coisa muito estranha. Era um homem pobre de idéias, limitado em seu próprio medo de mergulhar na dificuldade das questões irrespondíveis. Assim, seu raso entendimento era por opção, não por faltar-lhe intelecto. Deixava os que o viam com a impressão de ser ele um homem esclarecido, seguro do que diz, e pleno em sua existência, mas a verdade é que Laurêncio mal conseguia ocupar o espaço de seu apartamento, tamanha a pequenice e solidão que lhe causava olhar para todo aquele espaço inabitado. Nada de dramático, porém, nessa constatação: Laurêncio tentou algumas vezes, estreitar relações com mulheres que encontrava casualmente pela vizinhança, e com algumas efetivamente viveu romancezinhos, mas Laurêncio era brando, plácido, estático, e não encontrou uma só mulher que conseguisse compartilhar dessa ausência de dinamicidade. Cansou de procurar. Viver só era também por opção, não por faltar quem lhe amasse.
Laurêncio vivia para o trabalho - embora o trabalho não vivesse para ele - um emprego na fábrica de papéis nas proximidades de sua casa – o que era muito bom, pois podia ir andando, ter mais tempo para não fazer nada; Laurêncio lidava bem com a linearidade, talvez por ter se acostumado a sempre saber qual seria o próximo passo. Vivia submerso em sua rotina previsível, e nela não havia espaço para novas descobertas, nem cabiam planos repentinos. Contentava-se com o salário no fim do mês, as gratificações que a fábrica lhe dava, e o cigarrinho pousado no cinzeiro no final do expediente. Anulou, mesmo que sem perceber, a aventura da existência, e isso apenas por ser Laurêncio uma peça da engrenagem que move a sociedade, e não por faltar no mundo um sabor que lhe atraísse. Experimentava, quando lhe surgia vontade, um novo sabor de sorvete, o deitar na grama e sair se coçando todo, o sentar-se num banco de praça e ler um bom livro. Mas Laurêncio não se dava a esse luxo nunca por muito tempo, achava difícil conciliar obrigação com prazer, e como era este primeiro que lhe trazia o sustento, ficava mesmo com a obrigação. Acabou tornando-se cinzento, alheio ao seu coração, que falava e Laurêncio nunca dava ouvidos; ser surdo era por opção, não por faltar-lhe os sentidos.
Não se pode dizer que era triste, mas o que vivia também não se pode chamar felicidade. Laurêncio vivia arrastando os dias, e moldando a eles seus passatempos desimportantes. Pode parecer trágico, mas viver essa vida rasa e monocromática era por adequação, e não por faltar-lhe pulsação. Assim era Laurêncio, nome de elemento químico, trinta e sete anos, trinta e sete sonhos desperdiçados, alguns dentes amarelados e apenas uma cômoda satisfação: a urgência de estar vivo.
28 de junho de 2007
O tom sério que essa tal de opinião faz a gente adquirir.

Considerações minhas para o poema "Tempos Modernos", de Brecht.
Abre parênteses para o poema:
"Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia uma época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.
A carne nova come-se com velhos garfos.
Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques de guerra
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeios.
As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca."
Fecha parênteses. Brecht é lindo.
Ao contrário do que afirmavam as mais mórbidas previsões apocalípticas, o século XXI segue seus rumos pelos caminhos da História, tendo como protagonistas duas idéias contrastantes e paradoxais: a modernidade promovida pelos progressos tecnológicos e o avanço dos tempos, e a estagnação do homem, promovida pela manutenção do que há de mais arcaico no quesito humanidade: o impulso predatório.
Ocorreram, nos últimos séculos, descobertas científicas que de tão imponentes intimidaram os mais ferrenhos religiosos; o homem criou as condições para que fossem desvendadas barreiras tecnológicas que pareciam intransponíveis. Enfim, as descobertas, os aprimoramentos e os vertiginosos avanços, que constituem a parte positiva da modernização, têm maximizado a idéia ilusória de “deusificação” do homem, enquanto este se considera o ser supremo e expoente máximo do que há de mais moderno na sociedade. No entanto, a realidade não economiza exemplos que nos mostram o contrário dessa suposta evolução, uma vez que os progressos promovem mudanças apenas na forma; a essência permanece a mesma.
Contrariamente à quebra de barreiras científicas e/ou tecnológicas, o homem contrói barreiras invisíveis que separam a modernidade dos mais genuínos sentimentos humanos: destrói-se o sentido de humanidade em detrimento da ganância e cobiça. Assim, nota-se um descompasso na sociedade atual, em que as tecnologias progridem e o caráter duvidoso do ser humano permanece estático. Um exemplo dessa estagnação de caráter é a guerra no Oriente Médio, na qual países de diferentes etnias e religiões permanecem em constante conflito por “simples” orgulho e intolerância.
É (além de revoltante) assustadoramente triste, que num mundo que goza de todos os recursos necessários para uma qualidade de vida confortável, ainda haja casos de pessoas morrendo por falta de pronto-atendimento e negligência em Instituições de saúde pública que perecem por falta de verba, já que esta é quase sempre desviada para cofres de terceiros. O Brasil, país que carrega em seu histórico um vergonhoso passado escravocrata, aboliu a escravidão, mas não o preconceito, e não-raro vemos negros sendo tratados de maneira coerente com os moldes coloniais, exemplificando a mediocridade do ser humano.
Modernidade sempre existiu, e continuará a existir, ainda que subjetiva e até mesmo incoerente, já que o homem relativiza a modernização. O caráter humano é intrinsicamente mesquinho, ambicioso, materialista, o que não permite que este se enquadre no cenário das mudanças conseqüentes do processo de globalização. Portanto, a constatação que se tem é a de que numa sociedade que se sustenta sobre os mais arcaicos alicerces e se constrói ainda sob moldes coloniais, haverá de ser sempre relativo o conceito de modernidade; o mundo valse-se das mais evoluídas tecnologias, enquanto o homem não possui um quinhão das qualidades que conferem dignidade à humanidade. A uma sociedade baixa, ordinária e humanamente estagnada, ainda não cabe a tão sonhada modernidade. E agora, José?
Sonho de voar







Só porque é lindo, porque dói de tão lindo e, por último, mas não menos importante, por ser incrível e absurdamente lindo! Ah, e porque o sonho de voar é o denominador comum de todas as vidas, ou ao menos de toda pessoa que já teve cinco anos e quis ir ver o céu azul de perto.
Exposição de fotografias: "Dream of flying", de Jan Von Holleben:
http://www.janvonholleben.com
30 de janeiro de 2007
Sismar, amar...
(Um conto pra você Ismar)
-- Alice Sant´Anna:
"Eu ainda tinha dentes de leite quando fomos apresentados. Não estou exagerando. Ismar, quando aparecia aqui em casa, falava em livros e música e cinema e mais um vasto repertório, aparentando no mínimo trinta anos. Talvez fossem os cabelos, ou o colete de francês em plena Nouvelle Vague: o fato é que Ismar era sinônimo de evento. De escolher tópicos e saia de bolinhas, só pra ver a sua barba se abrindo em sorriso de aprovação.
Cantando de braços dados uma marchinha de carnaval, hoje, percebo como é difícil mudar essa impressão. É que a sua presença não é dessas discretas, camufladas, num canto de sala. Ismar que diz: atente para isso ! e me mostra músicas cheias de violinos e outros instrumentos que só ele é capaz de inventar, num movimento de mãos, olhos e dentes.
A sua arquitetura é para ser estudada. De camisa listrada - ele cabe no seu corpo ? Sentado na cama, à meia-luz do abajur, as paredes com fotografias de filmes em preto e branco e citações de Bandeira a Sartre, Ismar às vezes é só fumaça de cigarro, pairando pelo quarto. Nos tênis, ele escreveu com caligrafia antiga: "um gênio", no esquerdo, "ou uma besta ?", no direito.
Os anjos tortos são sempre mais espertos, e preferem o gauche. Ismar que descarta uma cidade inteira com um levantar de sobrancelhas -- porque o que é feio e de mau gosto, ah que ele comenta ! Mas também, e principalmente, aquele que vibra, que não se contém num solo de trompete ou numa palavra bonita. Num observar de detalhes que parece que engole a gente, porque o menino é, acima de tudo, poeta.
A verdade é que Ismar não existe. É verbo na primeira conjugação, é criação da própria criatura, é personagem tão rico que expande os limites e dá inveja para os outros contadores de história."

