13 de outubro de 2008

Voltando a passar pelo coração

"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."

A pequena edição de capa amarela só revela o seu peso quando o carregamos no colo. Do Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano despenca um mundo de possiblidades que só esperam que abramos os olhos. É um livro de restrições, de liberdades; de sonhos desperdiçados; do cotidiano e do extraordinário; de política e de amor; de tormentos e ternuras; de coisas tão pequenas que se perdem num abraço, mas que, ao mesmo tempo, ultrapassam a largura que os braços podem forjar. Eduardo Galeano, primeiro cidadão ilustre do Mercosul, nasceu em Montevidéu, em 1940. Mais que o Galeano conhecido por qualquer um que já tenha ouvido falar de uma América Latina de Veias Abertas ou que colecione citações críticas ao imperialismo, ele é o Galeano das palavras que andam, do mundo que vaga, dos mais de 30 títulos traduzidos em mais de 20 línguas, dos olhos azuis e sorriso largo que já completam 68 anos. Mas, de tudo, o que me fica é o impacto do livro de abraços, que, para mim, mais pareceu um aperto. A estúpida ingenuidade das primeiras linhas vai traçando um caminho para o fantástico, que passa pelo absurdo, pelo protesto e pelo prosaico. Galeano passou sua vida sendo arremessado pelos quatro cantos da América Latina. Viveu o exílio dos anos 70 e sentiu várias fomes e dores que não somente as suas próprias. O Livro dos Abraços, como outras obras do autor, nasce do resultado de suas andanças. Uma singela tentativa de congelar a memória. Pequenos momentos, aqueles que sacodem a alma da gente sem a grandiloqüência dos heroísmos de gelo, mas com a grandeza da vida. O começo, por sua descontextualização, incita uma certa inquietação, dessas que vêm só para depositar uma interrogação irritante no meio da testa e depois ir embora. Não sabemos ao certo o que Galeano quer mostrar, quem são as personagens, o porquê de estarem ali, mas sabemos que deve valer o risco. De um pequeno conto entitulado O mundo, sai a primeira síntese dos pensamentos absurdos do autor: "o mundo é isso, um montão de gente, um mar de fogueirinhas". Com a calma que nos é requisitada, continuamos a girar os olhos pelas páginas que seguem e, aos poucos, vão despontando cenários, personagens, criaturas míticas, fábulas: tudo aquilo que, até o final da última página, já estaremos pegando pela mão e chamando pelo nome. De súbitas guerras e relatos doloridos de tortura, a possibilidade de botar reparo nas pequenas coisas, de questionar o papel da arte, desbravar fronteiras não apenas geográficas do mapa da América, mas da moral humana. As mais feias imagens vistas da ótica mais pura que Galeano conseguiu encontrar. A pureza vista pelo ângulo mais frio. E o leitor já submerso num universo único de brincadeira e aguda seriedade. O autor mimetiza suas próprias palavras para construir uma narrativa repetitiva, mas nunca cansativa. Escreve pequenos contos que acabam numa página; outros maiores que logo ganham duas ou três, em que as reticências parecem aparecer para resguardar a melhor parte. O Livro dos Abraços é feito de histórias estilhaçadas que encontram a parte que lhes falta e a cola que as une no meio do caminho. A noite, por exemplo, é uma história ridiculamente pequena que tem suas quatro partes divididas por apenas uma página. Todas falam da mesma mulher, do mesmo cenário, da mesma angústia e mesma alegria; é uma história completa, mas se não fosse fragmentada por essa página, não guardariam o mesmo grau de mistério e significação. É o livro da minúcia. Um trabalho artesanal de colagem de histórias que nos distrai a ponto de que, num momento que nunca saberemos ao certo, descobrimos que os personagens do começo são os mesmos do final do livro. Que a mulher que ele tanto destaca é, na verdade, a Helena de sempre, sua mulher. E assim, num livro que nem é biografia, em contos que nem são ficção, acabamos sabendo de Galeano como pessoa que casou, teve filhos, fome de abraços, saudade da pátria, infarto do miocárdio e simpatia por Portinari. Galeano conduz uma lanterna que observa o movimento tranqüilo da narrativa. Observa as palavras que se dispersam para voltar a se esbarrarem e, finalmente, se abraçarem. Parece banal se pensarmos pequeno, mas como todo silêncio excessivo é estupidez, Galeano dá voz a todas às histórias que encontra por aí abandonadas para compor um livro de agradáveis relatos que tentam, a partir da despretensão, resgatar a grandeza das pequenices da vida. O Livro dos Abraços nunca se esgota; é uma leitura de paciência e de sempre, que nunca encontra razão para parar. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições, diria o autor. Ou não. Apenas acenderia um cigarro e seguiria rumo à percepção de outras pequenas sutilezas.
*texto publicado na Revista Wave

30 de setembro de 2008

Quanto pesa uma interrogação

Mas naquele dia ela pensava na leveza. Pura e simples joie de vivre.
Em como as pequenas pedras que emolduravam o mar eram metodicamente pesadas para contrastarem com a leveza da água quando nela fazem aquele barulhinho bom de escutar. As pessoas que dividiam aquele espaço com ela, ocupadas em viver aquele sol e aquele verão fora de época, não compartilhavam dos mesmos pensamentos, e o que acontecia era que toda aquela angústia cabia perfeitamente em todo aquele espaço, ainda que a pequenice de sua cabeça não lhe permitisse guardar muito mais que alguns tormentos. Deitada na areia quente, não conseguia dormir. As pessoas continuavam a rir e conversar, a escandalizar e a rir, a fumar e a rir, a se movimentar rindo, e a rir tanto, que pareciam chorar.Ela ignorava, queria dar vazão àquelas dúvidas, continuava a pensar na leveza. Não conseguia dormir. Os olhos fechados e a mente aberta. A boca se permitindo inundar daquele ar e de todo aquele mormaço; a preguiça que aquela calmaria proporcionava. Ela pensava em como o verão podia ser leve; as roupas, o tempo que se estende, as obrigações que ficam para depois da cerveja, que ficam para depois do almoço, que ficam para depois daquela noite mal dormida e pra depois daquele dia em que todo mundo sente sono. Enquanto grudava seu corpo na quentura da areia, pensava em tudo que existe como um ciclo; pensou tanto que, no final, o peso das pedras em frente ao mar deixou de importar, já fazia algum sentido. Mas, principalmente, ela própria se sentia diferente, um tanto mais aliviada e menos insignificante que no início daquele temporal sazonal de sensações. Apenas diferente: mais leve, afinal. A vida é feita para se morrer dela.

16 de setembro de 2008

Pra dançar diferente

Tudo o que se diga sobre o primeiro álbum solo de Marcelo Camelo são apenas devaneios e tentativas de definição dos quais o próprio disco quer se esquivar. Em Sou, Camelo está sozinho, mas é impossível deixar de perceber toda a bagagem hermanística que traz nas costas. Na verdade, o que se percebia já há algum tempo era uma gradação do coletivo para o individual, culminando na transformação da banda em muitos e incríveis trabalhos-solo. Entre a despretensão e a simplicidade, a beleza. O disco deixa o refinamento musical de lado para se entregar ao sossego das cordas, algo que Camelo deixava que se dispersasse nos Los Hermanos. O que não cabia lá, cabe aqui. Passeando por cenários musicais completamente distintos, Marcelo se agarra ao melhor de cada estilo para modelar uma harmoniosa colagem que dispensa a mínima classificação. Hultmold, Dominguinhos, Mallu Magalhães e o piano suave de Clara Sverner pontuam a singularidade – e um tanto do estranhamento - de Sou. Cabe o samba quase-frevo deliciosamente tropicalista de Menina Bordada; a poesia musicada de Téo e a Gaivota; a influência folk que incita as azucrinantes e inevitáveis palminhas duplas de Janta; o auge de pulsação que o álbum alcança de Mais Tarde; a latinidade, o batuque e o maracatu em potencial de Vida Doce (!); os assovios mansos que compõem as frases sonoras de Doce Solidão e versões instrumentais das canções mais dormentes do álbum, Passeando e Saudade – em que quase se desconfia que o disco realmente dormiu. Além da inocência de Copacabana permitindo um carnaval fora de época e da releitura das já conhecidas Liberdade e Santa Chuva. Mergulhamos na recorrência das palavras jogadas nas músicas, que se espalham incitando a certeza de que não estão onde estão por um acaso. Solidão, doçura, saudade. As palavras nos avisam do novo Camelo, que não deixa de ser o de sempre, por carregar a mesma calmaria da voz e por solicitar de quem ouve a mesma (gostosa) paciência requisitada em qualquer um dos discos dos Los Hermanos. Por um lado, é a exibição completamente nua do estilo de Marcelo Camelo, que, como de costume, não aspira à adoração universal. Por outro lado, mais contextualizado, é uma espécie de anunciação de que algo acabou, mesmo. Sou manda avisar que Marcelo encontrou o espaço para se esticar. O espaço que precisava para ser. Um canto para se reduzir a pés descalços, cabelo desarrumado e camiseta velha e deixar que os dedos suavemente seduzam o violão, sem roubar o espaço dos muitos instrumentos que constroem o disco e dos barulhinhos de fundo conservados das gravações originais. Em Sou, as canções estão de pijamas, mas perfeitamente adequadas para sair e dançar. O álbum tem mil rostos, que vão se mostrando calmamente a cada pormenor percebido, a cada aumentadinha no volume, a cada acesso de paciência. Sou parece às vezes ter sido feito às pressas, ainda que com o maior sossego. Parecer ter sido entregue a mais minuciosa das mãos – prova disso é a brincadeira concretista de Rodrigo Linhares na arte da capa, que se reflete sem disfarce em todas as músicas – e ao mesmo tempo, não deixa de ter toda a espontaneidade. O clima é tanto de “senta aqui, que hoje eu quero lhe falar” que o disco soa o tempo todo como uma brincadeira. Não por lhe faltar seriedade, mas pela suavidade com que Marcelo Camelo maneja as palavras: carinho para os ouvidos. Entre antíteses e trocadilhos sacanas que são melhores no som do que na letra, alguns lapsos de explicação: “posso estar só, mas sou de todo mundo”. É tanta tranqüilidade que a coisa toda mais parece uma roda de violão no meio de um boteco qualquer que, sem perder o refinamento, responde sutilmente de onde, afinal, é que vem a calma.

4 de setembro de 2008

Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração

a pequena morte

"Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem, não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por encontrar-nos e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem, mas grande, muito haverá de ser, se ao nos matar nos nasce."

a linguagem da arte

"Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova York. Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma câmera nas mãos, mas disseram a ele que era fácil. - Você olha por aqui e aperta ali. E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmera e olhou por aqui e apertou ali. Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope. Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu."

a noite

"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, pediria a ela que fosse embora, mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta. Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas. Dispa-me. Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo".

Os contos acima foram extraídos do Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano. Foi a última vez em que eu me apaixonei.

.abraço a.bra.ço sm (de abraçar) 1 Ato de abraçar; amplexo. 2 Bot Cirro, gavinha. 3 Arquit Entrelaçamento de folhagem lavrada em volta de uma coluna. 4 Aderência, compressão, fusão.

tão Zé

"Danç-eh-sá Ao Vivo" - o álbum que celebra o fim da canção como possibilidade artística.

Ícone das invencionices musicais, Tom Zé nos ensina com quantas rugas se faz uma vontade de inovar. O disco é uma continuação de “Dança dos herdeiros do sacrifício”, de 2006. Na releitura - se é que chamá-lo assim não é reduzi-lo a muito menos do que ele é - presenciamos a transformação das antigas canções e a valorização da música despida de letras. É a nudez das músicas bem comportadas. A partir das raízes brasileiras na cultura africana, o nosso baiano de Irará constrói a possibilidade de uma canção ser feita apenas com sons. Por isso, neste disco, o lirismo dá espaço para barulhinhos, onomatopéias e interjeições. Mas sem deixar que uma música assim tão sintética seja tomada pela plasticidade. Aqui, quem guia a cadência são os tambores, percussões e os neologismos embrulhados na voz firme de Tom Zé. Como ele mesmo diz, "é a falência do dicionário, a esculhambação dos verbetes". A idéia surgiu a partir de uma pesquisa que a MTV fez em 2005, que apontava a obsessão dos jovens pelo hedonismo, consumismo e a música eletrônica. Por isso, o álbum nasce como um convite para um diálogo. É uma rememorização constante de onde viemos. A afirmação invariável de que somos uma mistura de povos. E mesmo que Tom Zé não seja um artista engajado (ô palavrinha feia) ele quer mostrar para os jovens a responsabilidade que eles têm num país de origens tão lutadoras. Cada título do CD tem o nome de uma revolta que conta a história dos escravos e antigos povos revolucionários brasileiros, como Revolta Queto-Xambá ou Revolta Malê. É uma tentativa de narrar a História do Brasil apenas com sons. Tom Zé, ao mesmo tempo prosaico e inventivo, evoca o astronauta libertário que criou em “2001” para percorrer o panorama da música digital influenciada pela tecnologia. Ele invade, então, o território que lhe era estranho: a internet. Quando perguntam sobre tal experiência, ele responde: “sinto-me como se saísse da Idade Média diretamente para uma estação orbital, como no filme de Kubrick". Atento, ele conhece os efeitos da passagem do tempo na música. Se o disco celebra o fim da canção, Tom Zé mostra que todo fim significa a possibilidade de um outro começo. Assim, a canção, tal como nos foi apresentada até então, acaba, mas se reinventa como sinal dos novos tempos. As letras das suas canções têm o começo geralmente pautado na poesia concreta. Aqui, no entanto, o cantor anula o intermédio das palavras e vai direto para o concretismo sonoro. Uma ilustração disso é a faixa Triu-Trii, que pelo excesso de similaridades sonoras, parece mais um exercício de fonoaudiologia. É a habilidade com os intrumentos convencionais e o engenho para tirar som de liquidificadores, máquinas de escrever, rádios, enceradeiras e garrafas que fazem de Tom Zé o louco mais sensato da música brasileira. Mesmo que para muitos este álbum pareça somente o barulho gritante de um velho decrépito, as onomatopéias de Tom Zé ultrapassam a etimologia medíocre para dizer muito mais que as palavras. Cada uma das 8 faixas do CD são divididas em três momentos: “viver”, “sofrer” e “revoltar”, uma referência ao Eclesiastes bíblico, espécie de compreensão do ritmo da existência. Tom Zé mostra que toda mudança é dialética: uma coisa deve sumir para que outra apareça, daí a importância de entendermos todos os tempos. Além disso, o próprio título do disco não economiza ironia para mostrar que para bom entendedor, mei pala bas. Esse disco chuta a repetição e aniquila o mais do mesmo. É Tom Zé, novamente novo, como sempre.

(matéria para Revista Ponto e Vírgula da Web-Rádio Virtual/Unesp, programa Sintonia)

23 de julho de 2008

Café Santa Cruz


"Se queres reparar nos desenhos nos três vitrais de entrada, deves chegar ao meio da tarde, e obrigar-te a não ter pressa. Em Coimbra vive-se devagar. É bom. Conheci poucos lugares onde reinasse assim tão absoluto o esplendor do incomum. Cada mesa tão diferente da outra: um pintor rústico que faz dos dedos pincéis; dois namorados que já saíram com a pressa física do amor; o velho reformado que lê pela décima vez o jornal da véspera - ou ainda o que registra envergonhado estes versos. Desiguais abismos, maneiras de se estar só, encontram aqui um abrigo temporário, senão a própria rasura do tempo. Pouco importa. Abandona-se, finalmente, ao mundo dos desenhos nos vitrais. É tudo o que precisas. Uma música feliz perde-se na tarde. E as lágrimas, afinal, são uma espécie de sorriso."

(...)
"Beijaram-se muito naquela escura taberna. Eram novos. Mas acreditavam excessivamente na colisão do afeto - e por pouco não os apedrejaram, alegando, por exemplo, que é proibido o amor a quem manifeste sintomas inequívocos de estar apaixonado. Este país, de fato, é um cemitério sem saída."


- manuel de freitas é poeta, tradutor, crítico literário, editor e diretor da revista portuguesa telhados de vidro.
Revista Piauí, ed. 22.

arte: Maikon Nery
Se não quer sentir o horrível peso do Tempo
Que pesa sobre os seus ombros e o esmaga,
Embriague-se sempre.

Com quê?
Com vinho, poesia ou virtude.
Com o que quiseres.
Mas embriague-se.

-baudelaire




Não penso nele há muito tempo. Talvez por isso ele despenque sobre mim com tamanha brutalidade. O fato é que o tempo vem comigo para onde eu vou, não consigo driblá-lo. Sacana. E mesmo para me queixar dele, devo recorrer às cinco letras que o formam. Sempre exibindo seus dentes largos de satisfação, o tempo senta-se a me olhar enquanto me arrasta por suas vontades. Mas não o culpo, é assim desde o seu início, e é assim com todas as pessoas. Já o difamaram por todos os cantos. Souberam dignar-lhe ingratidão quando, ligeiro, acelerava os seus ponteiros. Oportunava-lhe o ofício: se retardava o passo para agradar a quem lamentava o seu afã, alimentava a tristeza dos que, mergulhados em alguma infelicidade, cobiçavam apenas a passagem das horas. Acontece que o tempo, ingênuo por tantas vezes, percebeu que deveria apenas continuar, sem medir as consequências. Talvez aí tenha nascido a sua arrogânica: não por gostar de ostentar tanta honra, mas por saber o seu lugar no mundo. O tempo passou a bastar-se. Desliza em seus passos sorrateiros por onde quer direcionar os trilhos do mundo, e nada anula o seu passeio. Determina escolhas, decide direções, desbota as cores, amortece as dores. Edifica sensações, perpetua sentimentos, possibilita esquecimentos. Apaga vanguardas, germina inovações, esmigalha o que fica pra trás. Condiciona os sabores, a direção dos ventos e a duração dos amores. Inspira, mas remete a chichês: o tempo não pára. É por causa dele que existe a evolução e o retardamento; o aprimoramento e o requinte; o declínio, a escassez, a falência múltipla dos órgãos; o ir e a possibilidade de voltar; o espaço, a probabilidade: a estúpida alternativa de deixarmos pra depois. Cada vez mais, tem as faces coradas quando citam-lhe o nome por aí. Artigo de luxo da atualidade, ajuda, inconscientemente, a construir os faustos de um mundo que até para respirar, o faz apressado. O tempo é irritantemente contínuo e misteriosamente incerto. Já lhe apontaram o dedo na cara aqueles que criticam a sua inexorabilidade. Outros, não sem nenhuma ironia, chamam-lhe “compositor de destinos”, “tambor de todos os ritmos”. Alguns, mais sutis, tratam-no com o intimismo de “mano velho”. Bobagem. Ele não procura companhia, quer apenas ser tempo. Segue decidido, a passos firmes, sem perceber as distorções que faz – ou deixa de fazer. Mal sabe que, por diversas vezes, o seu avanço ininterrupto e fugaz não impediu que permanecessem intactos alguns aspectos da humanidade; não somente os cantos insólitos, como também os mais óbvios e gritantes: todos imunes às mutações que o tempo é capacitado a fazer. O mundo não se decide em relação ao tempo, observa o seu próprio viravoltear e consegue sair ileso às suas manifestações. Daí vem o porquê de o que é moderno ou avançado nem sempre estar aliado às artimanhas temporais. Cheio de manha, esse tempo. Agora mesmo ele ri por mim um riso tímido e quieto por ter passado impunemente enquanto me subtraía horas irreversíveis, fazendo-me pensar nele. Sua definição é o retrato exato da complexidade. Mas talvez seja só porque eu há muito não pensava nele. E talvez também por isso, ele despenque sobre mim com tamanha brutalidade, rindo um riso tímido e quieto.

Esculturas efêmeras do céu:



... Guimarães Rosa

9 de maio de 2008

A Paixão Segundo G.H

Da série: "perder-se também é um caminho"
Um apartamento na cobertura de um prédio. Um quarto de empregada abandonado aos olhos da patroa. Uma mulher presa ao conforto de sua vida. Assim começa “A Paixão Segundo G.H”. O livro nos transporta para os confins do pensamento humano, através do fluxo de (in)consciência da personagem-narradora. Somente duas personagens povoam o livro, mas muitas reflexões povoam o nosso pensamento. G.H é uma mulher como outra qualquer, até o momento em que se depara com o que até então supunha não existir. A partir da demissão da empregada, ela se vê obrigada a limpar o apartamento, função para a qual nunca havia se prestado, mas que despertava o seu interesse, afinal, “limpar é colocar as coisas em ordem” e a organização dava a sensação de segurança de que G.H tanto precisava. A idéia de abrir o quartinho da empregada produzia na mente de G.H as imagens mais sórdidas: julgava encontrar um lugar repleto de traças e tomado pelo mofo. Mas não, o quarto era o recanto de limpeza que G.H julgava existir somente no seu mundo. Ao abrir o guarda-roupa, a calma da personagem é quebrada pela saída de uma barata, que, ligeira, tentava fugir. A partir disso, começa uma enorme viagem pela imaginação da personagem. A barata promoveu a catarse e significou um máximo estado de introspecção. G.H começa o seu processo de encontro consigo mesma, uma espécie de auto-resgate: “Eu procuraria não esquecer que os geólogos já sabem que no fundo do subsolo do Saara há um imenso lago de água potável (...) O deserto tem uma umidade que é preciso encontrar de novo”. G.H nos leva até o seu passado, relatando situações que até então estavam engavetadas em seu pensamento. O aborto de seu filho volta com força total, e a faz reviver a sensação de que estar grávida era como ter um peixe devorando o seu interior. Essa frieza de G.H assusta o leitor, e, no início, projeta-se no modo como a personagem encara a barata. Mas esse distanciamento era, na verdade, alienação, e é dessa constatação que surge em G.H a vontade de transformação. O aparecimento da barata balança os alicerces da vida de G.H, e ameaça derrubar toda a sua segurança, uma vez que a barata simboliza, no livro, a desorganização. “A isso quereria chamar desorganização, e teria segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização, pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro (mundo)”. A personagem tinha medo de desviar do caminho que conhecia, tinha medo de relatar o que aconteceu para o leitor, mas demonstra, desde o começo do livro, a capacidade de segurar na mão imaginária do interlocutor, e relatar com detalhes o acontecido.“É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do que sinto. “É como se eu tivesse uma moeda, e não soubesse em que país ela vale”. Essa coragem evolui até chegar ao seu ápice. Clarice, através de G.H, nos faz supor a vida em dois planos: o da limpeza, representada pelo conforto do apartamento de G.H, e o da sujeira, representada pela barata e toda a sua significação. A personagem vivia mergulhada em sua rotina de apartamento e café, sem atentar para toda a subversão que existia no mundo. A barata a fez ter contato com a imundície, que, sem ela perceber, a levou para um estado de consciência jamais habitado antes. Nesse trecho do livro – assim como em vários outros - há passagens bíblicas muito emblemáticas e recorrentes que associam a barata ao imundo. O próprio nome do livro, cuja palavra “paixão” também pode ser interpretada como o envolvimento profundo do leitor no mergulho da personagem, é uma alusão explícita à Paixão vivida por Jesus Cristo. O contato com a barata era a sua chaga; a reflexão produzida por ele, sua via-crucis; e o ato de comer o inseto, sua crucificação. A porta do guarda-roupa não se abrira por acaso, e não só o contato visual com a barata se fazia necessário, como também o contato mais profundo: o tátil e o gustativo. A sensação primeira de G.H foi de nojo, de repulsa por aquilo que ela via como a representação do que de mais sujo havia no mundo, e foi esse sentimento o ímpeto de força que fez G.H comprimir o inseto contra a porta; depois, aconteceu a identificação, a sensação de que ela e a barata não eram de todo diferentes. “O que nela é exposto, é o que em mim eu escondo”: essa era a diferença essencial entre ambas as criaturas, mas que, na verdade, tornava-as cada vez mais iguais. G.H, então, passou a nutrir um certo sentimento de compaixão pela barata. Enquanto esta agonizava no limite entre a porta do guarda-roupa e o chão no quarto, G.H estendia toda a sua existência no espaço daquele quarto, e agonizava em seu entendimento de si mesma. “Como eu não sabia o que eu era, então não-ser era a minha maior aproximação da verdade”. Comer a barata seria o seu modo de evasão. Era quase uma obrigação, a partir da qual a personagem poderia entender o gosto daquilo que ignorava: “Até então meus sentidos estavam desligados/mudos para o gosto das coisas”. Todas as obras de Clarice prevêem uma mudança nas personagens principais. Por isso é que “A paixão segundo G.H” não é um romance cíclico. A G.H do final do livro não é a mesma que se deparou com o quarto da empregada. Acontece um processo de evolução muito claro, e a personagem afirma: “O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim (...) Como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida. A vida se me é, se me é; eu não entendo o que digo. E então adoro.” Está selada, então, a ressurreição de G.H, que finalmente pode se considerar renascida. A massa branca da barata purificou sua percepção de mundo, e a personagem era agora uma folha em branco. Não era mais uma G.H de apartamento, e sim, uma G.H do mundo.

Fina massa para paladares refinados



O cenário musical brasileiro nunca esteve tão saboroso. O projeto musical 3 na massa mistura vozes femininas à sonoridades que lembram canções francesas dos anos 60, resultando na mais gostosa promessa musical de 2008.
Assim como o projeto paralelo Orquestra Imperial, formado por músicos em rotação, como Seu Jorge, Rodrigo Amarante e Thalma de Freitas, 3 na massa surpreende pela diversidade de composição e influências diversas. A “massa”, como sugere o nome, é moldada pelas mãos hábeis dos músicos da Nação Zumbi, Pupillo e Sucinto Silva, além do músico paulista Rica Amabis, do grupo Instituto. A intenção era compor uma mistura que desse novo sabor à música pop-eletrônica nacional, abusando de barulhinhos e efeitos sonoros diversos.
O recheio é formado pelas composições de Rodrigo Amarante, Lirinha, Jorge du Peixe e outros. Suas letras salpicam o refinamento das canções. Recheadas de segredos amorosos, frustrações e experiências típicas do universo feminino, elas dão o tom da inocência, mas sem banalizar. Já o tempero fica por conta das participações femininas mais que especiais, que juntam nomes como Thalma de Freitas, Céu, Leandra Leal e Nina Becker, entre tantas outras. Nessa mistura, há ainda um contato intercontinental: Nina Miranda, a vocalista brasileira da indefinível banda inglesa Smoke City, também dá a sua contribuição, na faixa “Morada Boa”.
3 na massa é uma colagem musical; utiliza influências externas, mesclas de hip-hop e jazz, sem negar o encantamento da boa música brasileira. Depois de estrear no My Space, eles lançam seu primeiro cd, "Na confraria das Sedutoras", confundindo qualquer um que possa pensar em colocar rótulos em sua sonoridade. A textura do disco é marcada pelas distorções eletrônicas combinadas com o baixo e a bateria dos músicos da Nação Zumbi. Essa combinação entre o eletrônico e os instrumentos tocados cria uma harmonia sonora digna de se ouvir com os olhos fechados.
O peso dos metais convive perfeitamente com as distorções, como em “Sem Fôlego”, interpretada por Lourdes da Luz, da banda paulista Mamelo Sound System. No início da canção, nos acostumamos com os efeitos eletrônicos; quando de repente, os intrumentos tocados invadem a música, além do vocal marcante e da levada hip-hop, sem que isso cause estranhamento. Neste álbum, o inusitado torna-se comum, e a naturalidade guia a cadência das músicas.
Definir seria limitá-los: 3 na massa transcende os limites da música facilmente cantarolável. A sensualidade das vozes femininas provoca sem vulgarizar. Exemplo perfeito disso é a faixa “Certeza”, cantada pela atriz e cantora Leandra Leal; sua narração em francês nos faz visualizar uma lolita francesa, e é digna de fascínio.
A maior beleza do disco está nas diferenças entre uma faixa e outra; em uma, um molho picante e fervente; em outras, uma sutil pitada de açúcar. Destaque para a inocente “Tatuí”, que na voz de Karine Carvalho lembra uma frustrada paixão adolescente; ou ainda para a sensualidade agressiva de “Pecadora”, embalada pela voz fantasiosa de Simone Spoladore. Há faixas em que a canção adquire tom de narrativa, como em “Certa Noite”, na voz de Alice Braga.
Esses contrastes fazem do disco um delicioso aperitivo para todas as horas. 3 na massa tanto poderia ninar o sono de um bebê, quanto servir de trilha sonora a um lascivo caso de amor. A consistência dessa massa está na criatividade do grupo, que é, antes de tudo, uma conjugação perfeita do paladar musical de cada integrante.

A extrema ousadia embrulha essa mistura sonora em papel especial, e o presente fica para os nossos ouvidos. Nada mais agradável.

22 de julho de 2007

Imaginação, imagine ação.


- Da percepção e outras coisas que só se vê quando se olha pra dentro.
Poluição. De monóxido de carbono, de multidões e de pensamentos.
Não havia um canto sequer ileso da má conduta do ser humano, e nada que fosse fitado naquele momento seria completamente limpo. À parte isso, as pessoas pareciam não se importar com o acúmulo de descaso nas esquinas e desfilavam pelas calçadas prestando atenção em seu próprio umbigo. Despreocupação desvairada, desprovida de qualquer humanidade. As ruas se cruzavam, mas as pessoas, não. Nada estava interligado. Uma esquina era totalmente alheia à outra. O poste mijado por bêbados cambaleantes era totalmente alheio ao outro poste enfeitado por grafites e mosaicos. Era cada esquina por si, cada poste por si, cada um por si, e as putas do Parque paqueravam tranqüilas enquanto o menino comia pipoca. Constatação inusitada, que me valeu alguns minutos de estranheza. Mas sentia-me bem apenas por notar a grandiosiodade que parecem ter as coisas quando ainda são inéditas. Depois vai diminuindo, fenecendo, até se tornar algo tão pequeno que sempre pareceu estar ali. É sempre assim. Os barulhos se espalhavam no ar como pedaços de um morango num liqüidificador e iam se instalar justamente na minha cabeça, enlouquecendo-me. Profecias, promessas, premissas, discursos daqueles que precisavam gritar para não parecerem loucos sozinhos: partilhar a loucura com o mundo e enlouquecê-lo. "Filhos-de-uma-peste", dizia a mulher com poucos dentes e pouca simpatia quando os transeuntes viravam-lhe a cara. Talvez a falta de simpatia fosse ocasionada pela falta de dentes, mas havia naquela expressão e naquele falar-quase-gritando uma mistura de revolta, tristeza e desdém que as pessoas continuavam a não ver e não escutar - se é que não fingiam uma das duas coisas. A cena não foi vista pela primeira vez, nem pela segunda, muito menos pela terceira, mas foi vista pela vez em que eu me envolvi. Foi quando constatei que se pode ficar subnutrido de humanidade, e essa constatação foi triste. O que pintava uma interrogação no entendimento era a contradição. Imensas construções inundadas por dinheiro, que é pra burguês nenhum botar defeito, e a cidade inundada de sujeira, que é pra mendigo nenhum tirar proveito - "êta, globarbarização". De repente, o lugar todo olhou para mim, como se quisesse que eu olhasse para outra direção e focasse minha atenção em alguma coisa feliz, afinal, havia beleza também, por todos os cantos, beleza demais. Na espontaneidade, na descontração, na intenção de inundar uma estação de metrô de linguagem, música e poesia; na capacidade de viver o momento, nas cores das coisas que aconteciam ao mesmo tempo. O batuque acontecendo ali e o comércio barulhento acontecendo lá. Uma despreocupação diferente da anterior, desprovida de qualquer maldade. Arte exposta nos muros, manifestações culturais que falavam por si mesmas. Arte barata, que diverte mas não basta. E arte abstrata, que invade e não maltrata. Era como uma colcha de retalhos de tudo o que se pode chamar de cultura: cada um escolhia a que melhor lhe cobrisse. Não é que tudo ali fosse bonito, mas o que era bonito era tão bonito que fazia o feio se livrar de uma parte da feiúra. E o sorriso se fazia soberano - "a única salvação do ser humano é a alegria".

13 de julho de 2007

Minha cabeça já esteve mais nas estrelas
Agora eu gosto mesmo é de pés
Sentir o pulsar do chão
Adivinhar o encanto
Seguir pelos cantos
Entoar num canto
O descuido que é viver
Deixar-me estar assim
Simples como tudo enfim
Que a complicação só há
Se a gente deixa ela estar
Saber que a vida é coisa indecifrável
E não saber, enfim, de nada
Mas desconfiar de muita coisa
Que os anos nos tragam rimas,
Não rugas.

5 de julho de 2007

A fatia mais doce


Eu cronico
Tu cronicas
Ele
crônica (II)

- Cacete! - eu pensei. As coisas acontecem de um jeito estranho.
Logo hoje, hoje mesmo, que me perguntei por onde andava aquele sorriso. Despontou sua voz do outro lado da linha, ávida e urgente. E eu, de súbito silêncio telefônico, pronunciei as primeiras palavras.
Perguntei dos últimos acontecimentos, do final de semestre, dos projetos engavetados, do cachorro. Ele perguntou da vida como andava, dos bares, das novidades, e mais tarde dos planos para preencher aquela noite. Disse-me com certa melancolia estudantil que corria sérios riscos de enlouquecer se ficasse estudando mais uma noite, e sugeriu que fizéssemos alguma coisa. Checou os cinemas, os teatros, os bares, e não havia nada além de peças teatrais infantis do outro lado da cidade, filmes hollywoodianos que ofendem a inteligência e músicos estranhos que atraem multidões igualmente estranhas; isto somado ao fato de que os locais em questão não foram projetados para comportar multidões. "Não temos balão de oxigênio". Decidimos por usufruir o seu imenso acervo cinematográfico, que comporta desde os clássicos até os excessivamente modernos. Optamos pelo filme que assistimos quando nos conhecemos, fizemos promessas de não cometer suicídio coletivo pós-filme, e combinamos o horário: 10 horas. Eu tinha cerca de uma hora para chegar a uma conclusão cabível e humanamente aceitável sobre o por quê dessas coisas acontecerem comigo, e dessa maneira específica, essa que me faz sentir totalmente impotente frente o desenrolar do meu próprio enredo, sem sequer escolher os personagens da trama. Naqueles quinze para as dez da noite, eu era toda calça jeans, camiseta, par de tênis e bala de menta, carregando um pacote de chocolate para adoçar o filme. Fui pelo mesmo caminho daquele dia, para diminuir as chances de me perder. Me perdi. "E eu pensando que me lembrava de todos os pormenores daquele sábado", lamentava para meus botões. Acabava de constatar: não lembrava. Fui parar numa rua desconhecida que me lembrou alguma cena de livro. Vi de longe um homem fechando o portão de uma casa e fui logo perguntar a ele o quão longe eu estava da rua Oliveira-alguma-coisa (sou péssima com explicações), ao que ele, todo bonachão, chamou sua mulher que estava lá dentro, afinal, como disse o tal homem "mulheres costumam ser mais sensatas". Ele e o filho me olhavam com cara de paisagem, como que com vergonha de não saberem explicar uma coisa tão simples para quem mora ali. Chegou a mulher, e antes que eu dissesse qualquer coisa, foi logo me acompanhando até a rua que ela suspeitava ser a que eu procurava. "Eu sei como é, sempre me perco lá pelas bandas de Jardins, aqui estou acostumada", ela me dizia com tanta simpatia que fiquei com vontade de dar a ela o chocolate que guardava na bolsa, mas me contive. E ela continuava: "...mas é bom, assim já trato de perder as calorias da pizza que comi, e não me sinto culpada". Duas quadras depois e já pude avistar a simpática e familiar casa amarela. Agradeci com muitos sorrisos e subi a rua respirando forte. Logo em frente, um rapaz e uma moça, conversando. Por um momento, pensei em cumprimentar, mas eles anteciparam os meus pensamentos e me lançaram um simpático aceno. Constatei minha excessiva cara-de-pau e ri em pensamento. Chamei, e já fui prontamente respondida - "Ei!" - Eu ri de novo, mas dessa vez não em pensamento. Ele passou da porta para o corredor numa rapidez que eu nem tive tempo de preparar uma cara apropriada ou disfarçar o meu calor e meu fôlego escasso - "Filho-da-mãe", pensei. Foi abrindo o portão sorrindo, tudo muito rápido, e me recolheu para dentro num abraço apertado cheirando a banho recém-tomado. Ah, era bom ver aquela casa de novo. Supliquei por água e fui cumprimentar a Tina - "Boa noite, pretinha!": era o cachorro mais humano que havia, com imensa sinceridade no olhar e latido honesto. Perguntei pelos outros que também viriam, mas vi que seríamos nós dois apenas. Lancei um olhar demorado por todo o ambiente e notei a descontração: as almofadas coloridas e as partituras espalhadas pelos cantos conferiam ao lugar um ar de "sinta-se à vontade". Puxei uma cadeira entre as tantas que enfeitavam a sala e, entre um assunto e outro, pude reparar no seu sorriso escancarado, significando um muitíssimo bom humor. Tratou de pegar cerveja na cozinha, e voltou se justificando, "Só uma está gelada, por enquanto". Sentamos e “colocamos as mentiras em dia” – como costumávamos dizer – e, como de costume, me senti burra quando li os seus trabalhos da faculdade espalhados pela mesa. Metodologia pra cá, lei não-sei-do-quê pra lá, e os estudos todos newtonianamente organizados numa pasta azul-piscina. Me mostrou as várias prateleiras entupidas de vinis, e em meio àquela gigantesca organização, me deparei com todos os tipos de sons, passando pela prateleira entitulada "tranqueira", onde ele acomodava as cafonices sonoras da vida. Alguma delas tocava na vitrola, e ele se sacudia histericamente, dizendo que seus filhos e netos ouviriam aquilo um dia. O riso era constante, tinha me esquecido do quanto somos exatamente nós mesmos quando nos juntamos. Aquele falar onomatopéico e estendido e o modo de balançar a cabeça em sinal de negação já eram meus velhos conhecidos; o que tinha ali de novo era o efeito interessante que aqueles olhos azuis produziam em mim, e é engraçado como isto dito assim parece banal. Falamos de tudo, chegamos até a planejar um experimento cientificamente monitorado para testar os diferentes sabores de cerveja. "Esta aqui não é boa, mas não é um clássico da ruindade, fico grato apenas por sua existência etílica", e brindava no ar, batendo num copo imaginário. Mas eu não conseguia me desligar do azul, era magnético. Depois de alguns desvios de planos e resistência por parte dele - "não quero amargurar os ares"- arrumamos o sofá e as almofadas, e nos resumimos à meias e travesseiros embolados. Combinamos que em alguns momentos falaríamos algumas bobagens, só para não chorar. Joel e Clementine conversando de lá, e nós de cá, imaginando como seria se cada cena do filme estivesse acontecendo com a gente - "o que faríamos?". Como eles eram perturbados! Uma perturbação beirando a insanidade, mas eram um pouco de nós, em vários momentos, embora a loucura de Clementine ofuscasse a normalidade de Joel. Parecíamos dois críticos de quinta achando defeito em cada detalhe (de modo que ficava impossível deixar-se envolver pela história dramática e ter desejos suicidas a posteriori) e, alguns risos mútuos depois, já éramos dois seres esparramados entre as almofadas com os braços entrelaçados. O filme pela metade, e tudo estava perto; foi inevitável o encontro dos rostos também. Se fosse diferente, perderíamos toda a naturalidade, e a perda da naturalidade entre duas pessoas é quase um crime. Os beijos e os abraços oscilavam entre as risadas e as conversas pseudo-filosóficas. O assunto foi abrangente, chegamos a temas perigosos. Ele me contou das decepções passadas, da sua falta de capacidade para adotar a solução mais simples, dos sumiços que são necessários, vez ou outra, e da dificuldade de se ser homem num meio tão gay. "Minha vida é complicada, sabe...", me dizia de tempos em tempos. "Eu fico meio amargo, às vezes, e não quero envolver ninguém nessa minha amargura, ela é só minha." E eu ouvindo, estática como um poste. Esparramei naquela sala todas as minhas teorias sobre as pessoas, sobre os vários de nós em nós mesmos, sobre os níveis de conhecimento que se pode ter sobre alguém, e só então me ocorreu "O melhor está nas entrelinhas", como dizia Clarice. Acho que se trata exatamente disso: o melhor de nós está nas entrelinhas, não no que está exposto, escancarado, óbvio. "Você é legal pra cacete!", dizia. Era bom trocar delírios e conflitos internos; mas aí, nos lembrávamos de que era sábado, de que estávamos ali, de que as coisas só doem porque nós queremos (vide a tão famosa frase drummoniana "a dor é inevitável, o sofrimento é que é opcional") e mandávamos tudo para o inferno, resgatando os beijos, abraços, assopros e suspiros de onde estes tinham parado. Éramos dois bobos discutindo as possibilidades de estar só e em companhia. Nunca o entendi tanto: ele é mais do que livre, precisa de espaço para se estender, e conquista amigos que de longe entendem tudo isso. Foi então que comecei a entender que nas vezes em que sofri, foi por esperar pessoas incondicionais - embora não acredite em coisas incondicionais, tampouco em coisas altruístas, afinal, até mesmo a moça que me ajudou a chegar na casa dele, não o fez por mim, mas por ela. Por ela, e por sua pizza. A hora avançava e eu tive que ir, esse momento foi dolorido, eu não queria ir. Estávamos sentados com as costas grudadas e as mãos dadas, como naqueles filmes em que amarram o mocinho e a mocinha de costas um para o outro. Era digno de uma fotografia. Abrimos o portão, ele lembrou de caçar uma camiseta qualquer, e me acompanhou pelo caminho, embora muito lhe custasse abrir os olhos naquela claridade de dia amanhecido. Percorríamos aquelas ruas com a calma de um canto gregoriano, desviando dos raios teimosos do sol que insistiam em nos cegar, . Ele ria, e me dava o perfil completo de cada morador dali, acrescendo algumas mentiras pra dar mais complexidade. Avistei a já lendária “Mirtes”, de quem ele já me falara tantas vezes e que de longe podíamos ver, no bar da esquina, de costas, vestido decotado, lavando a louça dos bêbados.
- E eu pensando que ela era centenária!
- Imagina! Ela está toda conservada.
- Já pegou?
- Não... Mas só porque ela não quis.
Muitas risadas. Não queria dizer nada tão clichê quanto pedir para não desaparecer por aí, não era necessário, e de fato não foi dito. Ele me abraçou. "Me desculpa pelo excesso de mim mesmo?" - me entregando uma flor amarela do canteiro mais próximo - , ao que eu respondi "Concordo com a Clarice", e ele sorriu. Não era um sorriso de frente, nem era um sorriso de lado, era o presente livre de passado e sem obrigação de futuro. Uma história que não devia explicações: era impunemente doce, e leve como a flor com cheiro de baunilha que eu segurava nas mãos. "Não desmaie no caminho, esse cheiro é tóxico". Boas lembranças são doces pedaços de vida.

3 de julho de 2007

"Viver é um descuido prosseguido"


Ela mal sabia as horas quando ele entrou por seu coração bicameral e se instalou sem nem bater na porta. Entrou, se esticou, deitou, rolou, cantou, dançou, e depois, em vez de se jogar na Lagoa Rodrigo de Freitas, se instalou. Já tem cama, comida, roupa lavada. Lugar certo na poltrona, cadeira reservada na mesa e escova de dentes. E aquele jeito de dormir? O jeito plácido de olhar, o jeito de não olhar. Ah, o jeito de não olhar... O sorriso tímido de quem ri em lugar que não pode, o jeito terno de dobrar a esquina e olhar pra trás, a tranqüilidade. Os delírios em sonho, os sonhos em realidade, a realidade delirante. Os filmes recheando tardes vazias, as mãos esquentando o frio, o macarrão esparramado no prato. E aquele casaco vermelho? O cabelo mal ajeitado do lado, o dente sujo de biscoito, o pescoço cheirando a perfume de terceira idade. E os risos contínuos? O dormir e acordar, o acordar pra depois dormir outra vez, o sorriso despercebido, no cantinho da boca, lindamente espontâneo.
E a saudade? o aperto bem no meio do coração, a sensação de ter esquecido como é sorrir mutuamente, a vontade de ver passando pela janela quando só se ia fechar a cortina, e sair correndo fazendo palhacice, a vontade de encontrar por aí, casualmente. Mas não, há a falta. E a ausência? o buraco, o tracejado reticente de mim mesma, a lacuna que só me há quando você não está. Mas depois torna tudo a se repetir. E nós?
Os apertos e rodopios, as cantorias e as artimanhas, os sabores e os amores, os doces e os levemente amargos, os abraços e os afagos, o apego, o sossego. E aí volta a ausência, soberana, em passinhos sorrateiros, fazendo-se por despercebida, levando um tanto de nós, e trazendo um pouco mais de nós, muitos nós, que custam a desatar. Ela nem sabia o que era que chegou invadindo, e seguiu colorindo. Não importa: pra muita coisa importante falta nome.

29 de junho de 2007

Laurêncio




Eu cronico
Tu cronicas
Ele crônica.

A vida, às vezes, nos ensina com quantos sonhos desperdiçados se faz um rosto triste.
Laurêncio tinha um desses rostos carregados de história, mas que, na verdade, são assim tristes por carecerem de grandes histórias; olhar para Laurêncio era como ver o que acontece quando a vida passa e a gente não se dá conta. Tinha olhos sinceros e sorriso apagado. Os cabelos castanhos mal cortados e raros naquela cabeça esférica lhe conferiam aparência desleixada. Os olhos também eram castanhos, e não se fixavam em nada que fosse realmente digno de ser fitado. Encimando a boca, um castanho bigode recém-cultivado, do qual orgulhava-se feito louco. A pele não era clara, nem morena: era castanha. Laurêncio era um sujeito castanho. Nem feio, nem bonito, e vez ou outra até atraía o olhar de alguma moça que cruzasse com ele na calçada, mas Laurêncio nunca notava; vivia sempre mergulhado em sua própria existência. Laurêncio era mirrado. Era mirrado por opção, não por faltar o que lhe nutrisse. Comia muito devagar e pouco, e isso devia-se ao fato de comer em companhia de si mesmo, fazendo palavras cruzadas ou até mesmo contando os azulejos da parede da cozinha, para não parecer que o silêncio o invadia por inteiro; Laurêncio não sabia que o silêncio trata-se de nós mesmos, só que demais, não sabia que o silêncio é o excesso da gente. Ou talvez soubesse, e por isso mesmo temesse deixar-se silenciar por completo. Laurêncio faltava a si mesmo, e estar em sua própria companhia era, em essência, como estar na companhia de alguém com quem não se tem nada em comum: um estranho. Não tinha assuntos consigo mesmo; os doces sonhos de outrora cresceram e verteram-se em vítimas da realidade nua e crua, a simpatia e o bom humor o haviam abandonado quase que completamente – exceto nas vezes em que se divertia observando os vizinhos sob as lentes de um binóculo velho - , e quanto à juventude, ah, esta já estava há tempos camuflada em seus trajes cinzentos e dentes amarelados, ambos regados a tabaco barato. Conversar consigo mesmo era como travar uma luta sem fim entre o que deveria ter sido no passado e o que era no presente. Laurêncio era justamente o que não deveria ter sido. Assim, preferia rechear os momentos solitários com passatempos vazios, evitando que seu eu frustrado resolvesse lhe questionar. E além do mais, detestava brigas. Laurêncio era um sujeito pacífico, tão nocivo quanto uma borboleta que pousa despretensiosamente no primeiro muro que lhe aparece. Ocupava no mundo nada mais que o espaço de seu próprio corpo, e retirava deste apenas o oxigênio necessário à sobrevivência, e alguns aprendizados, como não poderia deixar de ser.
Era muito curioso, confuso de si e do mundo, mas não lhe apetecia passar mais que cinco minutos digladiando-se com questões de metafísica filosófica; a isto, bastava um copo de tequila e uma tragada num cigarro, para que a confusão mental logo se dissolvesse. Mas, à parte isso, gostava de ler, e mantinha alguns tortos hábitos de leitura.Abominava livros de leitura pesada, densa, estendida. Preferia as histórias em quadrinho baratas de banca de revista, e os versos repletos de lugar-comum contidos em livros de citações, frases e pensamentos. Laurêncio era de fato um homem de frases e pensamentos - alheios, mas ainda assim frases e pensamentos. Sempre que estendia conversa com alguém nos bares ou botecos, acabava logo com a discussão citando um Sartre, um Sócrates, um Shakespeare, este último, aliás, não sabia pronunciar sem que ficasse parecendo uma onomatopéia ou coisa muito estranha. Era um homem pobre de idéias, limitado em seu próprio medo de mergulhar na dificuldade das questões irrespondíveis. Assim, seu raso entendimento era por opção, não por faltar-lhe intelecto. Deixava os que o viam com a impressão de ser ele um homem esclarecido, seguro do que diz, e pleno em sua existência, mas a verdade é que Laurêncio mal conseguia ocupar o espaço de seu apartamento, tamanha a pequenice e solidão que lhe causava olhar para todo aquele espaço inabitado. Nada de dramático, porém, nessa constatação: Laurêncio tentou algumas vezes, estreitar relações com mulheres que encontrava casualmente pela vizinhança, e com algumas efetivamente viveu romancezinhos, mas Laurêncio era brando, plácido, estático, e não encontrou uma só mulher que conseguisse compartilhar dessa ausência de dinamicidade. Cansou de procurar. Viver só era também por opção, não por faltar quem lhe amasse.
Laurêncio vivia para o trabalho - embora o trabalho não vivesse para ele - um emprego na fábrica de papéis nas proximidades de sua casa – o que era muito bom, pois podia ir andando, ter mais tempo para não fazer nada; Laurêncio lidava bem com a linearidade, talvez por ter se acostumado a sempre saber qual seria o próximo passo. Vivia submerso em sua rotina previsível, e nela não havia espaço para novas descobertas, nem cabiam planos repentinos. Contentava-se com o salário no fim do mês, as gratificações que a fábrica lhe dava, e o cigarrinho pousado no cinzeiro no final do expediente. Anulou, mesmo que sem perceber, a aventura da existência, e isso apenas por ser Laurêncio uma peça da engrenagem que move a sociedade, e não por faltar no mundo um sabor que lhe atraísse. Experimentava, quando lhe surgia vontade, um novo sabor de sorvete, o deitar na grama e sair se coçando todo, o sentar-se num banco de praça e ler um bom livro. Mas Laurêncio não se dava a esse luxo nunca por muito tempo, achava difícil conciliar obrigação com prazer, e como era este primeiro que lhe trazia o sustento, ficava mesmo com a obrigação. Acabou tornando-se cinzento, alheio ao seu coração, que falava e Laurêncio nunca dava ouvidos; ser surdo era por opção, não por faltar-lhe os sentidos.
Não se pode dizer que era triste, mas o que vivia também não se pode chamar felicidade. Laurêncio vivia arrastando os dias, e moldando a eles seus passatempos desimportantes. Pode parecer trágico, mas viver essa vida rasa e monocromática era por adequação, e não por faltar-lhe pulsação. Assim era Laurêncio, nome de elemento químico, trinta e sete anos, trinta e sete sonhos desperdiçados, alguns dentes amarelados e apenas uma cômoda satisfação: a urgência de estar vivo.



28 de junho de 2007

O tom sério que essa tal de opinião faz a gente adquirir.


Considerações minhas para o poema "Tempos Modernos", de Brecht.
Abre parênteses para o poema:















"Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.

Meu avô já vivia uma época nova
.
Meu neto talvez ainda viva na antiga
.
A carne nova come-se com velhos garfos
.
Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques de guerra

Nem os aviões sobre os telhados

Nem os bombardeios.
As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca."
Fecha parênteses. Brecht é lindo.


Assim não caminha a humanidade.
Ao contrário do que afirmavam as mais mórbidas previsões apocalípticas, o século XXI segue seus rumos pelos caminhos da História, tendo como protagonistas duas idéias contrastantes e paradoxais: a modernidade promovida pelos progressos tecnológicos e o avanço dos tempos, e a estagnação do homem, promovida pela manutenção do que há de mais arcaico no quesito humanidade: o impulso predatório.
Ocorreram, nos últimos séculos, descobertas científicas que de tão imponentes intimidaram os mais ferrenhos religiosos; o homem criou as condições para que fossem desvendadas barreiras tecnológicas que pareciam intransponíveis. Enfim, as descobertas, os aprimoramentos e os vertiginosos avanços, que constituem a parte positiva da modernização, têm maximizado a idéia ilusória de “deusificação” do homem, enquanto este se considera o ser supremo e expoente máximo do que há de mais moderno na sociedade. No entanto, a realidade não economiza exemplos que nos mostram o contrário dessa suposta evolução, uma vez que os progressos promovem mudanças apenas na forma; a essência permanece a mesma.

Contrariamente à quebra de barreiras científicas e/ou tecnológicas, o homem contrói barreiras invisíveis que separam a modernidade dos mais genuínos sentimentos humanos: destrói-se o sentido de humanidade em detrimento da ganância e cobiça. Assim, nota-se um descompasso na sociedade atual, em que as tecnologias progridem e o caráter duvidoso do ser humano permanece estático. Um exemplo dessa estagnação de caráter é a guerra no Oriente Médio, na qual países de diferentes etnias e religiões permanecem em constante conflito por “simples” orgulho e intolerância.
É (além de revoltante) assustadoramente triste, que num mundo que goza de todos os recursos necessários para uma qualidade de vida confortável, ainda haja casos de pessoas morrendo por falta de pronto-atendimento e negligência em Instituições de saúde pública que perecem por falta de verba, já que esta é quase sempre desviada para cofres de terceiros. O Brasil, país que carrega em seu histórico um vergonhoso passado escravocrata, aboliu a escravidão, mas não o preconceito, e não-raro vemos negros sendo tratados de maneira coerente com os moldes coloniais, exemplificando a mediocridade do ser humano.
Modernidade sempre existiu, e continuará a existir, ainda que subjetiva e até mesmo incoerente, já que o homem relativiza a modernização. O caráter humano é intrinsicamente mesquinho, ambicioso, materialista, o que não permite que este se enquadre no cenário das mudanças conseqüentes do processo de globalização. Portanto, a constatação que se tem é a de que numa sociedade que se sustenta sobre os mais arcaicos alicerces e se constrói ainda sob moldes coloniais, haverá de ser sempre relativo o conceito de modernidade; o mundo valse-se das mais evoluídas tecnologias, enquanto o homem não possui um quinhão das qualidades que conferem dignidade à humanidade. A uma sociedade baixa, ordinária e humanamente estagnada, ainda não cabe a tão sonhada modernidade. E agora, José?


Sonho de voar


































Só porque é lindo, porque dói de tão lindo e, por último, mas não menos importante, por ser incrível e absurdamente lindo! Ah, e porque o sonho de voar é o denominador comum de todas as vidas, ou ao menos de toda pessoa que já teve cinco anos e quis ir ver o céu azul de perto.

Exposição de fotografias: "Dream of flying", de Jan Von Holleben:
http://www.janvonholleben.com

30 de janeiro de 2007

Sismar, amar...

(Um conto pra você Ismar) -- Alice Sant´Anna: "Eu ainda tinha dentes de leite quando fomos apresentados. Não estou exagerando. Ismar, quando aparecia aqui em casa, falava em livros e música e cinema e mais um vasto repertório, aparentando no mínimo trinta anos. Talvez fossem os cabelos, ou o colete de francês em plena Nouvelle Vague: o fato é que Ismar era sinônimo de evento. De escolher tópicos e saia de bolinhas, só pra ver a sua barba se abrindo em sorriso de aprovação. Cantando de braços dados uma marchinha de carnaval, hoje, percebo como é difícil mudar essa impressão. É que a sua presença não é dessas discretas, camufladas, num canto de sala. Ismar que diz: atente para isso ! e me mostra músicas cheias de violinos e outros instrumentos que só ele é capaz de inventar, num movimento de mãos, olhos e dentes. A sua arquitetura é para ser estudada. De camisa listrada - ele cabe no seu corpo ? Sentado na cama, à meia-luz do abajur, as paredes com fotografias de filmes em preto e branco e citações de Bandeira a Sartre, Ismar às vezes é só fumaça de cigarro, pairando pelo quarto. Nos tênis, ele escreveu com caligrafia antiga: "um gênio", no esquerdo, "ou uma besta ?", no direito. Os anjos tortos são sempre mais espertos, e preferem o gauche. Ismar que descarta uma cidade inteira com um levantar de sobrancelhas -- porque o que é feio e de mau gosto, ah que ele comenta ! Mas também, e principalmente, aquele que vibra, que não se contém num solo de trompete ou numa palavra bonita. Num observar de detalhes que parece que engole a gente, porque o menino é, acima de tudo, poeta. A verdade é que Ismar não existe. É verbo na primeira conjugação, é criação da própria criatura, é personagem tão rico que expande os limites e dá inveja para os outros contadores de história."

Ferreira Gullar

No mundo há muitas armadilhas e o que é armadilha pode ser refúgio e o que é refúgio pode ser armadilha Tua janela por exemplo aberta para o céu e uma estrela a te dizer que o homem é nada ou a manhã espumando na praia a bater antes de Cabral, antes de Tróia No mundo há muitas armadilhas e muitas bocas a te dizer que a vida é pouca que a vida é louca E por que não a Bomba? te perguntam. Por que não a Bomba para acabar com tudo, já que a vida é louca? Contudo, olhas o teu filho, o bichinho que não sabe que afoito se entranha à vida e quer a vida e busca o sol, a bola, fascinado vê o avião e indaga e indaga A vida é pouca a vida é louca mas não há senão ela. E não te mataste, essa é a verdade. Estás preso à vida como numa jaula. Estamos todos presos nesta jaula que alguém foi o primeiro a ver de fora e nos dizer: é azul. E já o sabíamos, tanto que não te mataste e não vais te matar e agüentarás até o fim. O certo é que nesta jaula há os que têm e os que não têm há os que têm tanto que sozinhos poderiam alimentar a cidade e os que não têm nem para o almoço de hoje A estrela mente o mar sofisma. De fato, o homem está preso à vida e precisa viver o homem tem fome e precisa comer o homem tem filhos e precisa criá-los No mundo há muitas armadilhas e é preciso quebrá-las

20 de janeiro de 2007

Matt Costa, Astair Da série "Tudo o que uma canção precisa para ser linda"