14 de junho de 2009

Estar debaixo de um edredon

Meu "capítulo imaginário" do livro "O primeiro gole da cerveja e outros minúsculos prazeres", de Philippe Delerm
No momento exato em que nos embolotamos debaixo de um edredon, sabemos que nenhum outro lugar seria tão receptivo a nossa necessidade de calor: qualquer ambiente que não a cama, nesse único instante, torna-se inóspito. O primeiro ato é o de chacoalhar: avidamente nos esprememos em nós mesmos na busca da melhor posição, e quando a achamos, percebemos que ainda está frio. O edredon jogado sobre a cama não basta para que ela esqueça os momentos que passou sozinha, sob efeito dos ventos lancinantes que entravam impunes pela janela. Por isso, a cama demora a sensibilizar-se com o nosso pequeno drama, e leva um tempo até que saiba ler nas entrelinhas dos nossos lábios trêmulos a urgência de calor. Viramos, reviramos e esfregamos o corpo naquela superfície até então inabitada, até que a temperatura se entregue, desarmada, ao poder do atrito: encontramos, enfim, algum alento. É aí que o edredon pode exibir, triunfal, toda a sua eficiência. Além disso, por ser versátil, ele se permite levar até o sofá e até mesmo conviver em harmonia com a pipoca que inevitavelmente cairá sobre ele. Edredons são oásis de calmaria e serenidade que se opõem ao caos, ao frio, ao vento e às grandes tempestades: tudo isso se anula debaixo de um edredon, e todas as coisas adquirem de repente uma calma inexplicável. Estar debaixo de um edredon é contagiante, banaliza suficientemente a vida para que estar ali se revista de uma importância que não conhecerão nem mesmo as coisas mais importantes. Estar ali é simples, como deve ser tudo aquilo que insiste em se sujar de complexidade. Diferente dos cobertores e mantas, ele é conciso, objetivo, sensato. Seu poder não depende nem de pêlos, nem de franjas: o edredon é apenas um amontoado de náilon e algodão recheado de algum volume espumoso e acolchoado no intuito único de consolar um corpo gelado. Não provoca espirros, alergias, coceiras ou rinite aguda: apenas conforto. É, como a música, “calor que provoca arrepio”.Mas, inexplicavelmente, não é nesse espaço de doçura candente que as pessoas passam o maior tempo. Bares, restaurantes, botecos e outros impiedosos ambientes ao ar livre descaradamente roubam a presença das pessoas, apenas porque é nesses meios que se exerce a sociabilidade. O edredon, porém, sabe de seu valor,e apenas espera enquanto aquele que o renegou está em qualquer lugar batendo os dentes, esfregando as mãos e soprando nelas pequenos jatos de ar quente para aliviar o frio, dando pulinhos de agonia gélida enquanto procura as chaves do portão de casa. Sempre muito solícito, ele recebe com gentileza em seus braços o filho pródigo: mais uma vez se inicia o movimento pela misericórdia da cama fria, enquanto o edredon jaz tranqüilo sobre aquele corpo desamparado. A possibilidade de estar debaixo de um edredon é como um cais a que se pode continuamente retornar: é sempre nele que ancoramos nossos corpos naqueles fugazes instantes em que só um abraço quente pode resolver nossas pequenas angústias.

1 de junho de 2009

da série "Pormenores urbanos".

Murais sempre me surpreendem, ainda que só olhe para eles como quem quer descansar os olhos da função maçante de olhar apenas para frente: a velha tirania do “olhe para frente de cabeça erguida”. Olho para o lado apenas, e encontro um mundo de possibilidades a me tentarem. Um mural, qualquer que seja, é uma grande via de sedução com conotação quase sexual. Diferentes papéis, fontes e cores se estapeiam por um minuto do olhar dos transeuntes, numa luta que, bem sabemos, só será ganha quando alguém se render aos encantos de algum aviso e parar para analisá-lo longamente. Os cartazes grifados a cores gritantes, os post-it desperdiçados à exaustão, a disputa muda pelo mais atrativo comunicado, pelo canto superior esquerdo, pela cola invencível ou por uma taxinha minimamente eficaz. Os murais são dóceis, aceitam qualquer coisa que se queira colocar. O pedido misericordioso de uma mãe que perdeu o filho, um aviso de liquidação de móveis velhos, a mudança de data do próximo encontro dos Alcoólicos Anônimos, profecias sobre a volta de Jesus Cristo e até mesmo o aviso de que, cordialmente e em letras garrafais, “troca-se um fogão velho por uma bola de capotão” (mural na moradia da Unicamp, 2006).

9 de abril de 2009

Metades

Nascida em 1988, numa daquelas manhãs de abril em que tudo parece quieto demais, era uma menina feliz. Acostumada desde cedo à calmaria da cidade onde nasceu, sabia que o mundo era maior. Era inclinada às pessoas, muitas delas, mas não todas – tinha especial apreço pela tia Dirce, uma agradável mistura de cabelos brancos e bondade que tomava conta dela em alguns sábados de festa de seus pais, ainda que não houvesse muito do que tomar conta. Sempre fora quieta, pelo menos nessas circunstâncias, sem a mãe por perto para frear sua euforia. Nos outros momentos, viva pendurada em árvores, deslizando em patins e correndo impunemente entre os meninos da rua. Tinha medo da Rifocina à que a mãe a submetia depois de ralar os joelhos no asfalto quente e, em hipótese alguma, enfrentava o escuro. Ainda que caçula de três filhos, não conseguia atrair as adulações de seus pais, sempre frustrando suas sessões de choro ininterrupto em longas tardes de castigo no quarto. Os pais, muito cuidadosos, espiavam vez ou outra para checar o cumprimento da penitência, mas que tal atitude era só pretexto para levar-lhe um copo de leite com chocolate batido, isso ela já sabia. Criada em família de comercial de margarina, desacostumou-se às asperezas da vida. Como adivinharia Lya Luft anos mais tarde, não sabia se livrar do monstro metade infantil metade adulto que nos faz achar absurdo que pessoas e paixões morram. Assim, amargou num choro sofrido e desacreditado a morte da única avó, Antonia. A maturidade só veio depois. Teimou em escrever a partir do dia em que ganhou um concurso de redação do colégio por duas vezes seguidas e pôde comprar um patinete. Absurdo dos absurdos, de ex-aspirante a astronauta, tornou-se potencial jornalista. Iniciou suas leituras por teimosia, por não saber querer outra coisa. Espantava-se com a complexidade do que não podia entender, mas não desistia sem tentar, e deve a J.D. Salinger os primeiros palavrões que aprendeu – e que logo aplicaria sem nenhum pudor. Nasceu no interior de São Paulo, numa cidade que ainda vivia intensamente as serestas regadas a sambas nostálgicos, comia pipoca na praça e ia ao zoológico rir dos macacos aos domingos: uma cidade infanto-juvenil, que não conhecia a malícia. Mas, inevitavelmente, cresceram: ela e a cidade. Muitos meses de abril se passaram, o Sol subiu e desceu muitas vezes, as vontades guinaram revoltas na direção adulta – ainda que o medo da Rifocina continuasse ao seu lado – para que ela se tornasse o que é. E é, em linhas gerais, uma ariana fervorosa e verborrágica inconseqüente, feita inteiramente de sonhos e medos. De menina ossuda e desconjuntada para a atual estrutura longilínea, volúvel e inquieta que conhecemos hoje, passou num susto. Hoje, sorri com todos os dentes sempre que pode, ainda que se entregue, destemida, às mais apavorantes crises existenciais. Inocente incurável, ainda que sutilmente apreensiva, vive longe da cidade que a viu crescer, dos pais, irmãos e cachorros, talvez pelo desejo de liberdade ou pela necessidade de lidar com o medo do mundo (depois de um tempo, já não se sabe mais). Sempre mergulhada até as orelhas no presente, vive em descompasso entre o que é e o que ainda poderá ser. Com apenas 20 anos, só por capricho ou obstinação, periga chegar até os 115, só para ver no que vai dar. Possivelmente, em sua lápide, se houver uma, o lembrete sutil: “aqui jaz Renata Penzani: atordoada com a gravidade da vida, morreu de tanto viver”.

26 de fevereiro de 2009

Felício

"Como a rua pode ser vazia quando não carrega amor”, pensava a doce Lena, carregando uma sacola, as chaves de casa e alguns pensamentos sobre como já havia movimentado aquela mesma rua quando era menina. “Bobagem!”, despistava a tristeza. Há anos ela repete o mesmo ritual. Todas as manhãs, ela vai até o mercado, e rodopia entre as filas de prateleiras e procura para o marido algo fresco e algo doce, nem sempre nessa mesma ordem. Felício, o marido, só um tanto mais velho do que ela, já não podia convencer as pernas e o corpo todo de que sua curiosidade pelo mundo ainda persistia, e ficava na sala, olhando para a tevê, mastigando qualquer coisa e apertando a bolinha da fisioterapia, entre remédios para a pressão e carinhos do gato. Não tinha doença nenhuma, apenas velhice e um pouco de preguiça. Lena entrou, pendurou as chaves na parede e foi logo preparar o queijo com goiabada para o marido. Da cozinha, ecoavam seus berros - Véio, cafezim? – o gato aparecia, ligeiro, bisbilhotando os cheiros que vinham de sua sacola – Vem ver, Leninha, acho que o gato pegou alguma coisa, ô, gato endiabrado. E a vida se passava morna naquela manhã, entre conversas triviais e sussurros do passado na cabeça de Lena. Os talheres tilintavam na mesa do café: o queijo, a goiabada, o café sem açúcar, o pão de leite com geléia de goiaba, e o gato procurando migalhas do banquete. Terminaram e foram para o quarto – haviam criado o hábito de um café reforçado para poder dispensar o almoço, assim antecipavam a pestana e as palavras cruzadas. Felício estava sentado, apoiado em dois travesseiros muito grandes, tentando ajeitá-los às curvas de suas costas. As palavras cruzadas no colo, a caneta caída no chão – Sai pra lá, gato! – e Leninha ao lado, ensaiando as primeiras palavras. Lembra daquele dia, véio? Fugíamos para nos encontrar atrás da banca de jornais. Felício, sem parecer dar muita atenção, lutava contra sua coluna e contra o gato para pegar a caneta. Era tão fácil ser irresponsável! E você, com toda lábia, me levava para onde quisesse. Lena olhava para o velho, as mãos inábeis segurando a caneta sobre o livro, um amontoado de resquícios do tempo em que era, sim, fácil ser feliz. Num minuto, ela narrou toda a juventude. O quarto enchia-se, nostálgico, do orgulho que ela sentia por carregar tanto bons momentos. Os bailinhos – como éramos cafonas, meu velho - , os porres, os passeios pela rua de madrugada, a capacidade de esquecer do mundo ao redor sem nenhuma culpa. Falou, sem interrupções - nem mesmo do gato, que mastigava, satisfeitíssimo, um pedaço da tampa da caneta -, de todo aquele tempo em que as vontades dominavam as atitudes, espírito do tempo de sua juventude, contracultura repleta de doces transgressões – ah, os meus vinte anos! A vida roubou de nós, véio. Leninha olhou para o lado, ainda sorrindo pelos pormenores que ia lembrando, e, num anticlímax desolador, ele dormia. Tinha os olhos muito juntos, e da boca soltava um fino fiapo de baba. Seu velho, ali, deitado, misto de passado adormecido e hipertricose auricular, ainda guardava a graça de tempos mais leves. Amava-o ainda. Levantou-se, num súbito de amor platônico. Afastou-se na ponta dos pés e, cuidando para não acordá-lo, ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite.

12 de fevereiro de 2009

Rua do Carmo, nº 17.

O poeta Maiakóvski escreveu: “em algum lugar do mundo, acho que no Brasil, existe um homem feliz”. Acho que o encontrei. Atende por Cabral, tem poucos dentes que escaparam de amarelecer, e tinha sono quando o conheci. Usava uma camiseta de tom indeciso entre o cinza e o bege claro, ocupava-se no conserto de um rádio velho e tinha duas rugas especificamente simpáticas no canto dos olhos. Entre os dedos, sossegava um cigarro, que cairia no próximo assovio de Cabral. A tal da felicidade, que ele tinha, poderia culpar muitas coisas. Um pouco da culpa fica, inevitavelmente, para Vivi, sua mulher: toda sorrisos e gentilezas, dessas que deixam o seu palavrão encabulado, e os seu grossos modos com vergonha de se mostrar. Outro tanto para o fato de que é dono de um dos pedacinhos mais interessantes da Bahia: “Cabral-Descobertas” - compra, vende, troca e encanta. Rua do Carmo, nº 17, Pelourinho, Salvador. O lugar, um pequeno beco que dá caminho a um mundo de quinquilharias e miudezas que poderiam ocupar todo o espaço existente, não fosse pela simpatia com que elas te conquistam. Um boneco Smurf, velho como a pólvora, me olhava com ternura, pendurado em um elástico na parede. Do outro lado, uma prateleira que poderia contar sozinha toda a história dos anos 80: brinquedos, fotografias, cartazes, câmeras, rádios, quadros: pequenos pedaços de história. O lugar todo era tomado de coisas; até para respirar, é melhor que se procure um espaço. Espingardas enferrujadas em posição de mira assustavam os mais incautos, ao que a música dos Mutantes devolvia a calmaria. “Você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina, da gasolina”. Não me espantaria se encontrasse tudo isso por ali mesmo, incluindo a Carolina. A cada curiosidade, levantava-se uma forte onda de poeira e mofo, mas até isso, ali, eram só simpatia. Ali, repousava empoeirada toda a coleção de playmobills, enquanto dois meninos reviravam a caixa de fotografias em cima do balcão. Vivi não se importava, ria e contava como adorava a visita de estudantes. “Quem são esses?”, disse o menino apontando para uma das fotografias da caixa. “São pessoas desconhecidas, fotos que foram ficando, ficando, e hoje ninguém mais lembra de quem são”. “Macabro”, afirmou com uma certa ênfase, deixando a velha caixa em paz. E a música complementava o cenário. “Vivemos na melhor cidade da América do Sul, da América do Sul”. "Lalarilalá", cantarolavam alguns.
De volta a Maiakóvski, no fundo, o resto da culpa pela felicidade é, simplesmente, da Bahia. Não há como ser triste na Bahia. Em São Paulo talvez, Minas Gerais, quem sabe, mas não na Bahia. Ameaçando uma pontinha de descontentamento, mude-se: Aracaju com certeza receberia com mais delicadeza o seu penar. Cabral contava já os seus cinquenta-e-poucos anos, mas talvez pela convivência ininterrupta com as velharias, aparentava mais. Seus olhos pendiam para o lado, convergiam com o nariz e formavam uma imagem que lembrava a de um buldogue, desses boa-praça, rabinho sempre abanando. Com Vivi, o contrário: tinha, obviamente, mais idade, mas algo no seu jeito denunciava uma menina de rabo-de-cavalo saindo para o colégio. Tinha o rosto todo dobrado em marcas de expressão, mas isso não enrijecia sua feição, apenas nos fazia imaginar o que ela estava fazendo enquanto o tempo exercia sua função de passar. Adorável Vivi. Entre os dois, o denominador comum: sorriso de não economizar dentes, e uma habilidade de fazer-nos sentir em casa. “Venha, que eu te mostro o resto”, ouvíamos, sem nem reparar de quem vinha. E Cabral falava, mantendo a familiaridade no tom de voz. Falava aos que apareciam por ali, aos montes, como quem fala a um filho mais novo: uma preocupação sutil que alertava dos perigos do mundo, mas que não escondia a vontade de se juntar na aventura.
Havia, por ali, uma calmaria imune à bagunça dos visitantes, indiferente à poeira que levantava a todo instante e fazia tossir um ou outro, ao gato que passou e derrubou uma estátua. Algo no ar que nos lembrava de que já fomos – e, de alguma maneira, ali, ainda éramos – mais ingênuos. Vivi logo interrompeu o silêncio: “...mas vocês encontraram o que vieram procurar na Bahia?” – dizia aquilo carregando na voz tudo o que podia de afeição, e talvez o olhar por ele só, fosse já uma pergunta. Ela não falava em “procurar”, muito menos em “encontrar”, mas todos entendíamos e respondíamos, com surpresas expressões de contentamento, o que também poderia ser compreendido como um Sim.

6 de janeiro de 2009

Do latim: a estrangeira.

A menina suja e despenteada estava parada entre a calçada e o portão da casa como se ambos já pertencessem a ela. Aparentemente vizinha da parede azul que chamou a sua atenção, ela queria convencer sua imaginação de que o que havia além do muro era bonito e interessante. Já estava ali há muito tempo. Não podiam saber os que acabavam de chegar no carro que ela devorava com os olhos, mas o enorme sorriso de satisfação ao ver alguém finalmente chegando foi quem a dedurou. Lambuzada de sorvete nas mãos e terra nos pés, exibia o sorriso honesto e desdentado a que se referiu Mario Quintana, mesmo que não fizesse uma vaga idéia de quem ele fosse. Velhinho, para ela, só seu avô, que certamente arrancava os cabelos à sua procura. Mal chegaram as pessoas por quem ela esperava e ela já partiu em busca de seu pequeno objetivo.
As crianças são cheias de pequenas metas, a serem cumpridas com o empenho de um navegador a procurar por novas terras. Uma volta no quarteirão calçando patins ganha conotação épica: as crianças constroem diariamente, com suas espadas, cavalos e armaduras de mentira, suas pequenas Ilíadas. Quando querem, trocam o cenário: onde estava a terra, aparece o céu, o cavalo vira tapete e a armadura, um chapéu pontudo com plumas coloridas, engraçado ou intimidante.
A menina falava, sem parar para reparar no que estava dizendo. Sabia que fazia sentido na sua cabeça e não precisava pensar mais sobre isso. As palavras desobedientes pulavam da boca na maior das boas intenções, queriam inocentemente expressar toda a euforia que cabia naqueles aproximados um metro e nove centímetros de pura inocência. "Bárbara, mas meus amigos me chamam de Barba". Ela se antecipava nas suas falas, sem muita articulação, comendo algumas sílabas, e recuperando-as com uma pausa e uma tomada de fôlego. Continuava, destemida, despreocupada, desembestada, a esbanjar seu léxico infantil. Os interlocutores, pobres adultos que nem se sabiam como tais, ouviam a tudo com admiração e certo espanto - como é que a infância de repente se tornou essa vontade de querer adiantar as coisas? - , respondendo como podiam às inúmeras interrogações que vinham de Barba e deles mesmos. "Posso ver a piscina? Posso ver tudo? Posso?". Ela nem se importava em ser atendida ou não, queria apenas falar. Nem sequer esperava pela resposta: dizia alguma coisa e já ia andando, pequeninamente insolente, acelerada, à frente dos três interlocutores que não conseguiam acompanhá-la. Sob uma chuva de especulações e curiosidades dos adultos, o corpinho de Barba saltitava pela casa, certamente lançando mão do plano de invasão que traçou mentalmente enquanto desenhava a rabiscos tortos a planta da casa. As justificativas sobre a impossibilidade de nadar na água cheia de bactérias da piscina ou as recomendações sobre avisar a mãe que estava ali passavam despercebidas. Só respondia a trivialidades como "quem penteou o seu cabelo?" ou "quantos anos você tem?". O ambiente desconhecido a ser desbravado era seu novo brinquedo.
Acabou explorando o corredor, a escada, os arbustos, o cachorro e a água levemente esverdeada da piscina, embora não tenha visto de fato nenhuma dessas coisas. Seus olhos brilhavam como quem olha para um castelo e seus milhares de mistérios. Saiu cheia de si, ostentando o troféu invisível de mais um de seus pequenos combates. Mal reparou nas portas que levavam a novos espaços desconhecidos: estava fortemente convencida de aquilo era tudo. Despediu-se apressada, ocupando-se em apontar seu barquinho e remo para outra direção.

18 de dezembro de 2008

Eu cronico
Tu cronicas Ele crônica (III) O chiclete passeava inquieto entre a língua e o céu da boca, enquanto ela imaginava o que se tornaria aquela noite. O céu acinzentado servindo de teto à avenida iluminada, suja e mal frequentada em que ela se sentia apenas mais uma. Por ali, Catarinas não havia muitas, quanto mais magras, frágeis e mortiças como ela – e logo ela voltava a se sentir especial. Não bastasse a triste constatação da labuta a cumprir, ainda chovia mansamente algumas gotas tímidas, na proporção de um espirro do céu. Impaciente, ela pisava violentamente o asfalto, que ficava marcado a cada alfinetada do seu salto fino; ela esmagava o chão como se soubesse que ele, como muitos que encontraria noite adentro, não se importaria com a sujeição. Aproximou-se da calçada roída de umidade o primeiro carro da noite enquanto a avenida ia se aquietando. Quanto? "Os homens se interessam por números por não saberem lidar com a abstração" - respondia, célebre, lançando mão de toda a sua habilidade vocabular, enquanto sucumbia aos olhares daquele que seria o primeiro cliente da noite. Quase sempre era ignorada em suas falas, que eram ofuscadas pela beleza do seu corpo bem-formado e pelo fato de que, naquele meio, palavras eram apenas números: preço, quantidade, horário, duração. Mesmo assim, fazia questão de exibir o que sabia, ostentando sua bagagem cultural como um troféu. Todo o conteúdo literário dos livros que ela devorava se soltavam como num cuspe: natural e involuntário. Passou da calçada para o carro com a rapidez de quem queria acabar logo com aquilo, mas com a elegância de um membro da nobreza. No caminho, saboreava seus pensamentos enquanto fingia não ouvir as asperezas que vinham do lado do motorista. Pensava em quantos livros poderiam ser seus depois de vencida aquela noite. Todos novinhos, capa dura, cheiro sedutor, edições raríssimas, vindas de muito longe só para satisfazer o que nela havia se tornado um vício. Já no quarto – um ambiente circunférico, com cortinas de veludo, todo revestido de espelhos e de um mau gosto sem igual – ela lamentava o fato de que certamente o idealizador daquele lugar nunca havia ouvido falar do romantismo contido na simplicidade de um cenário bucólico. Já estava sendo esmagada por movimentos bruscos e sem nenhuma criatividade, quando começou a pensar em como as pessoas poderiam achar paradoxal uma moça de fino trato, feito ela, dar-se a essas baixezas da vida; era a primeira vez que lhe ocorria tal pensamento, ela não se importava com as pessoas e seus achismos. Ela, uma prostituta – demi mondeine, preferia – muito letrada, preenchia com livros o que lhe faltava de pudor. Conhecia bem os altos preços de seus objetos de desejo, e também conhecia o pouco talento que tinha para se prestar a outro serviço. O fato é que já estava nessa vida quando experimentou os livros, passar a dedicá-la ao novo prazer descoberto não seria difícil. Quase se perdeu nos devaneios – oh!, exclamou assustada - às vezes, o fingimento era penoso. Trocou de expressão sem esforço, passando num segundo do tédio à excitação. Fingiu um ou dois gemidos amarelos e, já em pé, na janela, acendeu um cigarro. Tinha os cabelos arregalados e o olhar despenteado: estava uma bagunça, por dentro e por fora, mas se encostou à janela enquanto o homem retornava de seu quase-transe. Dava sempre esse tempo para o fechamento dos negócios, os cinco minutos que pareciam durar uma vida. Esboçou um sorriso mal feito e vestiu-se com a pressa de quem está sob ameaça. Contando as notas recebidas, ela descia a rua já sem precisar carregar aquele semblante triste de antes, concentrando seu pensamento: a mais nova tradução de Baudelaire, com a qual já flertava há algum tempo, poderia ser dela. Caminhando a passos largos, logo chegou onde queria. Entrou na livraria mais cara da cidade: recostada à esquina de um bairro aparentemente simples, a construção ostentava grande requinte arquitetônico; Catarina entrou por uma comprida porta de madeira, com penduricalhos de ouro velho, sem conseguir controlar o rosto corado e o coração acelerado. Correu para as prateleiras e namorou longamente aquela imensa quantidade de raridades. Num minuto, já somava em suas mãos o equivalente ao conquistado no quarto das cortinas de veludo e mau gosto sem igual, mas nem percebeu, estava extasiada. Após longas horas de flerte contínuo, deixou a livraria como quem deixa um amigo querido, carregando um pacote pesadíssimo cujo conteúdo incitava arrepios de curiosidade. Gostava principalmente de poemas, e orgulhava-se por ter sido iniciada no gênero por um brasileiro dotado de ares de bom moço: Manuel Bandeira; conheceu-o numa feira de livros no Rio de Janeiro, logo após rodear a estante dos estrangeiros e perceber que havia enjoado da grande maioria; era como se não falasse a língua daqueles que se comunicavam com expressões. Somente depois de instituída sua intimidade com o gênero, é que aprendeu a apreciá-los. Bom vivant, era o que ela se sentia, mesmo sabendo que não era. Voltou para casa. Novo cigarro, longo banho, cama. Encostou a cabeça no travesseiro, que parecia não dar conta daquele peso que sentia, e abriu as páginas de uma de suas aquisições. Uma, duas, seis, vinte, cinquenta-e-sete: as páginas viravam sem que o tempo tivesse importância. O enredo, os personagens, a velocidade dos acontecimentos: tudo a envolvia completamente. E assim se passava. Prostituía-se pelos livros até que, de uma maneira muito estranha, os livros passaram a servir à prostituição. Com tempo, vida e obrigação passaram a falar uma só língua. Não conseguiria frear a segunda, porque dela dependia a primeira. Os livros vinham do dinheiro fácil das noites, deles vinham as muitas histórias devoradas à exaustão, delas, o desejo de sacudir o mundo, imitar a ficção, criar enredos e tornar-se ela própria personagem e, disto tudo, a certeza de que o outro dia poderia ser o que ela quisesse (com isso, ela lembrava da velha história de que cada dia é como uma pipoca quentinha em que o sal é por conta). Era mais ou menos um movimento de contradição tentando se fazer reciprocidade. Isso porque Catarina buscava na vida comum as fantasias e os acontecimentos extraordinários que via na Literatura - o trabalho, naturalmente, passou a pesar o peso desse objetivo. Algumas noites, quase que por delírio, ela desejava, olhos brilhando, ser acometida por um grande drama: um roubo, alguma violência, quem sabe humilhações, só para sentir o gosto da ação, o sangue fervendo nas veias, a vida correndo para alcançar a arte, a verdade querendo ser mentira. Depois sentia-se mal, primeiramente por voltar para casa sem nenhuma grande novidade - nada além da sempre mesma carência dos que pagavam por atenção, da calvície disfarçada com penteados deprimentes, do cheiro do chiclete de menta que amenizava o mau hálito dos que a procuravam – e depois, pela constatação de sua paranóia. Ela queria na vida um pouco mais de ficção e, na ficção, razoáveis porções de realidade. Mas Catarina continuava a menina que se sentia mais uma entre várias na Avenidade suja e mal iluminada. A magra, frágil e mortiça moça não exigia demais, apenas sabia que na vida faltava a urgência da ficção, enquanto esta ia carecendo de realidade. Vivia no limiar entre as duas, não podendo se privar de nenhuma, mas torcendo o tempo todo para que elas se encontrassem num ponto qualquer. “Não há literatura que durma a onça escura”, ela sorriu inesperadamente, lembrando Drummond, enquanto adormecia.

13 de outubro de 2008

Voltando a passar pelo coração

"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."

A pequena edição de capa amarela só revela o seu peso quando o carregamos no colo. Do Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano despenca um mundo de possiblidades que só esperam que abramos os olhos. É um livro de restrições, de liberdades; de sonhos desperdiçados; do cotidiano e do extraordinário; de política e de amor; de tormentos e ternuras; de coisas tão pequenas que se perdem num abraço, mas que, ao mesmo tempo, ultrapassam a largura que os braços podem forjar. Eduardo Galeano, primeiro cidadão ilustre do Mercosul, nasceu em Montevidéu, em 1940. Mais que o Galeano conhecido por qualquer um que já tenha ouvido falar de uma América Latina de Veias Abertas ou que colecione citações críticas ao imperialismo, ele é o Galeano das palavras que andam, do mundo que vaga, dos mais de 30 títulos traduzidos em mais de 20 línguas, dos olhos azuis e sorriso largo que já completam 68 anos. Mas, de tudo, o que me fica é o impacto do livro de abraços, que, para mim, mais pareceu um aperto. A estúpida ingenuidade das primeiras linhas vai traçando um caminho para o fantástico, que passa pelo absurdo, pelo protesto e pelo prosaico. Galeano passou sua vida sendo arremessado pelos quatro cantos da América Latina. Viveu o exílio dos anos 70 e sentiu várias fomes e dores que não somente as suas próprias. O Livro dos Abraços, como outras obras do autor, nasce do resultado de suas andanças. Uma singela tentativa de congelar a memória. Pequenos momentos, aqueles que sacodem a alma da gente sem a grandiloqüência dos heroísmos de gelo, mas com a grandeza da vida. O começo, por sua descontextualização, incita uma certa inquietação, dessas que vêm só para depositar uma interrogação irritante no meio da testa e depois ir embora. Não sabemos ao certo o que Galeano quer mostrar, quem são as personagens, o porquê de estarem ali, mas sabemos que deve valer o risco. De um pequeno conto entitulado O mundo, sai a primeira síntese dos pensamentos absurdos do autor: "o mundo é isso, um montão de gente, um mar de fogueirinhas". Com a calma que nos é requisitada, continuamos a girar os olhos pelas páginas que seguem e, aos poucos, vão despontando cenários, personagens, criaturas míticas, fábulas: tudo aquilo que, até o final da última página, já estaremos pegando pela mão e chamando pelo nome. De súbitas guerras e relatos doloridos de tortura, a possibilidade de botar reparo nas pequenas coisas, de questionar o papel da arte, desbravar fronteiras não apenas geográficas do mapa da América, mas da moral humana. As mais feias imagens vistas da ótica mais pura que Galeano conseguiu encontrar. A pureza vista pelo ângulo mais frio. E o leitor já submerso num universo único de brincadeira e aguda seriedade. O autor mimetiza suas próprias palavras para construir uma narrativa repetitiva, mas nunca cansativa. Escreve pequenos contos que acabam numa página; outros maiores que logo ganham duas ou três, em que as reticências parecem aparecer para resguardar a melhor parte. O Livro dos Abraços é feito de histórias estilhaçadas que encontram a parte que lhes falta e a cola que as une no meio do caminho. A noite, por exemplo, é uma história ridiculamente pequena que tem suas quatro partes divididas por apenas uma página. Todas falam da mesma mulher, do mesmo cenário, da mesma angústia e mesma alegria; é uma história completa, mas se não fosse fragmentada por essa página, não guardariam o mesmo grau de mistério e significação. É o livro da minúcia. Um trabalho artesanal de colagem de histórias que nos distrai a ponto de que, num momento que nunca saberemos ao certo, descobrimos que os personagens do começo são os mesmos do final do livro. Que a mulher que ele tanto destaca é, na verdade, a Helena de sempre, sua mulher. E assim, num livro que nem é biografia, em contos que nem são ficção, acabamos sabendo de Galeano como pessoa que casou, teve filhos, fome de abraços, saudade da pátria, infarto do miocárdio e simpatia por Portinari. Galeano conduz uma lanterna que observa o movimento tranqüilo da narrativa. Observa as palavras que se dispersam para voltar a se esbarrarem e, finalmente, se abraçarem. Parece banal se pensarmos pequeno, mas como todo silêncio excessivo é estupidez, Galeano dá voz a todas às histórias que encontra por aí abandonadas para compor um livro de agradáveis relatos que tentam, a partir da despretensão, resgatar a grandeza das pequenices da vida. O Livro dos Abraços nunca se esgota; é uma leitura de paciência e de sempre, que nunca encontra razão para parar. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições, diria o autor. Ou não. Apenas acenderia um cigarro e seguiria rumo à percepção de outras pequenas sutilezas.
*texto publicado na Revista Wave

30 de setembro de 2008

Quanto pesa uma interrogação

Mas naquele dia ela pensava na leveza. Pura e simples joie de vivre.
Em como as pequenas pedras que emolduravam o mar eram metodicamente pesadas para contrastarem com a leveza da água quando nela fazem aquele barulhinho bom de escutar. As pessoas que dividiam aquele espaço com ela, ocupadas em viver aquele sol e aquele verão fora de época, não compartilhavam dos mesmos pensamentos, e o que acontecia era que toda aquela angústia cabia perfeitamente em todo aquele espaço, ainda que a pequenice de sua cabeça não lhe permitisse guardar muito mais que alguns tormentos. Deitada na areia quente, não conseguia dormir. As pessoas continuavam a rir e conversar, a escandalizar e a rir, a fumar e a rir, a se movimentar rindo, e a rir tanto, que pareciam chorar.Ela ignorava, queria dar vazão àquelas dúvidas, continuava a pensar na leveza. Não conseguia dormir. Os olhos fechados e a mente aberta. A boca se permitindo inundar daquele ar e de todo aquele mormaço; a preguiça que aquela calmaria proporcionava. Ela pensava em como o verão podia ser leve; as roupas, o tempo que se estende, as obrigações que ficam para depois da cerveja, que ficam para depois do almoço, que ficam para depois daquela noite mal dormida e pra depois daquele dia em que todo mundo sente sono. Enquanto grudava seu corpo na quentura da areia, pensava em tudo que existe como um ciclo; pensou tanto que, no final, o peso das pedras em frente ao mar deixou de importar, já fazia algum sentido. Mas, principalmente, ela própria se sentia diferente, um tanto mais aliviada e menos insignificante que no início daquele temporal sazonal de sensações. Apenas diferente: mais leve, afinal. A vida é feita para se morrer dela.

16 de setembro de 2008

Pra dançar diferente

Tudo o que se diga sobre o primeiro álbum solo de Marcelo Camelo são apenas devaneios e tentativas de definição dos quais o próprio disco quer se esquivar. Em Sou, Camelo está sozinho, mas é impossível deixar de perceber toda a bagagem hermanística que traz nas costas. Na verdade, o que se percebia já há algum tempo era uma gradação do coletivo para o individual, culminando na transformação da banda em muitos e incríveis trabalhos-solo. Entre a despretensão e a simplicidade, a beleza. O disco deixa o refinamento musical de lado para se entregar ao sossego das cordas, algo que Camelo deixava que se dispersasse nos Los Hermanos. O que não cabia lá, cabe aqui. Passeando por cenários musicais completamente distintos, Marcelo se agarra ao melhor de cada estilo para modelar uma harmoniosa colagem que dispensa a mínima classificação. Hultmold, Dominguinhos, Mallu Magalhães e o piano suave de Clara Sverner pontuam a singularidade – e um tanto do estranhamento - de Sou. Cabe o samba quase-frevo deliciosamente tropicalista de Menina Bordada; a poesia musicada de Téo e a Gaivota; a influência folk que incita as azucrinantes e inevitáveis palminhas duplas de Janta; o auge de pulsação que o álbum alcança de Mais Tarde; a latinidade, o batuque e o maracatu em potencial de Vida Doce (!); os assovios mansos que compõem as frases sonoras de Doce Solidão e versões instrumentais das canções mais dormentes do álbum, Passeando e Saudade – em que quase se desconfia que o disco realmente dormiu. Além da inocência de Copacabana permitindo um carnaval fora de época e da releitura das já conhecidas Liberdade e Santa Chuva. Mergulhamos na recorrência das palavras jogadas nas músicas, que se espalham incitando a certeza de que não estão onde estão por um acaso. Solidão, doçura, saudade. As palavras nos avisam do novo Camelo, que não deixa de ser o de sempre, por carregar a mesma calmaria da voz e por solicitar de quem ouve a mesma (gostosa) paciência requisitada em qualquer um dos discos dos Los Hermanos. Por um lado, é a exibição completamente nua do estilo de Marcelo Camelo, que, como de costume, não aspira à adoração universal. Por outro lado, mais contextualizado, é uma espécie de anunciação de que algo acabou, mesmo. Sou manda avisar que Marcelo encontrou o espaço para se esticar. O espaço que precisava para ser. Um canto para se reduzir a pés descalços, cabelo desarrumado e camiseta velha e deixar que os dedos suavemente seduzam o violão, sem roubar o espaço dos muitos instrumentos que constroem o disco e dos barulhinhos de fundo conservados das gravações originais. Em Sou, as canções estão de pijamas, mas perfeitamente adequadas para sair e dançar. O álbum tem mil rostos, que vão se mostrando calmamente a cada pormenor percebido, a cada aumentadinha no volume, a cada acesso de paciência. Sou parece às vezes ter sido feito às pressas, ainda que com o maior sossego. Parecer ter sido entregue a mais minuciosa das mãos – prova disso é a brincadeira concretista de Rodrigo Linhares na arte da capa, que se reflete sem disfarce em todas as músicas – e ao mesmo tempo, não deixa de ter toda a espontaneidade. O clima é tanto de “senta aqui, que hoje eu quero lhe falar” que o disco soa o tempo todo como uma brincadeira. Não por lhe faltar seriedade, mas pela suavidade com que Marcelo Camelo maneja as palavras: carinho para os ouvidos. Entre antíteses e trocadilhos sacanas que são melhores no som do que na letra, alguns lapsos de explicação: “posso estar só, mas sou de todo mundo”. É tanta tranqüilidade que a coisa toda mais parece uma roda de violão no meio de um boteco qualquer que, sem perder o refinamento, responde sutilmente de onde, afinal, é que vem a calma.

4 de setembro de 2008

Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração

a pequena morte

"Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem, não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por encontrar-nos e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem, mas grande, muito haverá de ser, se ao nos matar nos nasce."

a linguagem da arte

"Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova York. Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma câmera nas mãos, mas disseram a ele que era fácil. - Você olha por aqui e aperta ali. E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmera e olhou por aqui e apertou ali. Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope. Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu."

a noite

"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, pediria a ela que fosse embora, mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta. Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas. Dispa-me. Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo".

Os contos acima foram extraídos do Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano. Foi a última vez em que eu me apaixonei.

.abraço a.bra.ço sm (de abraçar) 1 Ato de abraçar; amplexo. 2 Bot Cirro, gavinha. 3 Arquit Entrelaçamento de folhagem lavrada em volta de uma coluna. 4 Aderência, compressão, fusão.

tão Zé

"Danç-eh-sá Ao Vivo" - o álbum que celebra o fim da canção como possibilidade artística.

Ícone das invencionices musicais, Tom Zé nos ensina com quantas rugas se faz uma vontade de inovar. O disco é uma continuação de “Dança dos herdeiros do sacrifício”, de 2006. Na releitura - se é que chamá-lo assim não é reduzi-lo a muito menos do que ele é - presenciamos a transformação das antigas canções e a valorização da música despida de letras. É a nudez das músicas bem comportadas. A partir das raízes brasileiras na cultura africana, o nosso baiano de Irará constrói a possibilidade de uma canção ser feita apenas com sons. Por isso, neste disco, o lirismo dá espaço para barulhinhos, onomatopéias e interjeições. Mas sem deixar que uma música assim tão sintética seja tomada pela plasticidade. Aqui, quem guia a cadência são os tambores, percussões e os neologismos embrulhados na voz firme de Tom Zé. Como ele mesmo diz, "é a falência do dicionário, a esculhambação dos verbetes". A idéia surgiu a partir de uma pesquisa que a MTV fez em 2005, que apontava a obsessão dos jovens pelo hedonismo, consumismo e a música eletrônica. Por isso, o álbum nasce como um convite para um diálogo. É uma rememorização constante de onde viemos. A afirmação invariável de que somos uma mistura de povos. E mesmo que Tom Zé não seja um artista engajado (ô palavrinha feia) ele quer mostrar para os jovens a responsabilidade que eles têm num país de origens tão lutadoras. Cada título do CD tem o nome de uma revolta que conta a história dos escravos e antigos povos revolucionários brasileiros, como Revolta Queto-Xambá ou Revolta Malê. É uma tentativa de narrar a História do Brasil apenas com sons. Tom Zé, ao mesmo tempo prosaico e inventivo, evoca o astronauta libertário que criou em “2001” para percorrer o panorama da música digital influenciada pela tecnologia. Ele invade, então, o território que lhe era estranho: a internet. Quando perguntam sobre tal experiência, ele responde: “sinto-me como se saísse da Idade Média diretamente para uma estação orbital, como no filme de Kubrick". Atento, ele conhece os efeitos da passagem do tempo na música. Se o disco celebra o fim da canção, Tom Zé mostra que todo fim significa a possibilidade de um outro começo. Assim, a canção, tal como nos foi apresentada até então, acaba, mas se reinventa como sinal dos novos tempos. As letras das suas canções têm o começo geralmente pautado na poesia concreta. Aqui, no entanto, o cantor anula o intermédio das palavras e vai direto para o concretismo sonoro. Uma ilustração disso é a faixa Triu-Trii, que pelo excesso de similaridades sonoras, parece mais um exercício de fonoaudiologia. É a habilidade com os intrumentos convencionais e o engenho para tirar som de liquidificadores, máquinas de escrever, rádios, enceradeiras e garrafas que fazem de Tom Zé o louco mais sensato da música brasileira. Mesmo que para muitos este álbum pareça somente o barulho gritante de um velho decrépito, as onomatopéias de Tom Zé ultrapassam a etimologia medíocre para dizer muito mais que as palavras. Cada uma das 8 faixas do CD são divididas em três momentos: “viver”, “sofrer” e “revoltar”, uma referência ao Eclesiastes bíblico, espécie de compreensão do ritmo da existência. Tom Zé mostra que toda mudança é dialética: uma coisa deve sumir para que outra apareça, daí a importância de entendermos todos os tempos. Além disso, o próprio título do disco não economiza ironia para mostrar que para bom entendedor, mei pala bas. Esse disco chuta a repetição e aniquila o mais do mesmo. É Tom Zé, novamente novo, como sempre.

(matéria para Revista Ponto e Vírgula da Web-Rádio Virtual/Unesp, programa Sintonia)

23 de julho de 2008

Café Santa Cruz


"Se queres reparar nos desenhos nos três vitrais de entrada, deves chegar ao meio da tarde, e obrigar-te a não ter pressa. Em Coimbra vive-se devagar. É bom. Conheci poucos lugares onde reinasse assim tão absoluto o esplendor do incomum. Cada mesa tão diferente da outra: um pintor rústico que faz dos dedos pincéis; dois namorados que já saíram com a pressa física do amor; o velho reformado que lê pela décima vez o jornal da véspera - ou ainda o que registra envergonhado estes versos. Desiguais abismos, maneiras de se estar só, encontram aqui um abrigo temporário, senão a própria rasura do tempo. Pouco importa. Abandona-se, finalmente, ao mundo dos desenhos nos vitrais. É tudo o que precisas. Uma música feliz perde-se na tarde. E as lágrimas, afinal, são uma espécie de sorriso."

(...)
"Beijaram-se muito naquela escura taberna. Eram novos. Mas acreditavam excessivamente na colisão do afeto - e por pouco não os apedrejaram, alegando, por exemplo, que é proibido o amor a quem manifeste sintomas inequívocos de estar apaixonado. Este país, de fato, é um cemitério sem saída."


- manuel de freitas é poeta, tradutor, crítico literário, editor e diretor da revista portuguesa telhados de vidro.
Revista Piauí, ed. 22.

arte: Maikon Nery
Se não quer sentir o horrível peso do Tempo
Que pesa sobre os seus ombros e o esmaga,
Embriague-se sempre.

Com quê?
Com vinho, poesia ou virtude.
Com o que quiseres.
Mas embriague-se.

-baudelaire




Não penso nele há muito tempo. Talvez por isso ele despenque sobre mim com tamanha brutalidade. O fato é que o tempo vem comigo para onde eu vou, não consigo driblá-lo. Sacana. E mesmo para me queixar dele, devo recorrer às cinco letras que o formam. Sempre exibindo seus dentes largos de satisfação, o tempo senta-se a me olhar enquanto me arrasta por suas vontades. Mas não o culpo, é assim desde o seu início, e é assim com todas as pessoas. Já o difamaram por todos os cantos. Souberam dignar-lhe ingratidão quando, ligeiro, acelerava os seus ponteiros. Oportunava-lhe o ofício: se retardava o passo para agradar a quem lamentava o seu afã, alimentava a tristeza dos que, mergulhados em alguma infelicidade, cobiçavam apenas a passagem das horas. Acontece que o tempo, ingênuo por tantas vezes, percebeu que deveria apenas continuar, sem medir as consequências. Talvez aí tenha nascido a sua arrogânica: não por gostar de ostentar tanta honra, mas por saber o seu lugar no mundo. O tempo passou a bastar-se. Desliza em seus passos sorrateiros por onde quer direcionar os trilhos do mundo, e nada anula o seu passeio. Determina escolhas, decide direções, desbota as cores, amortece as dores. Edifica sensações, perpetua sentimentos, possibilita esquecimentos. Apaga vanguardas, germina inovações, esmigalha o que fica pra trás. Condiciona os sabores, a direção dos ventos e a duração dos amores. Inspira, mas remete a chichês: o tempo não pára. É por causa dele que existe a evolução e o retardamento; o aprimoramento e o requinte; o declínio, a escassez, a falência múltipla dos órgãos; o ir e a possibilidade de voltar; o espaço, a probabilidade: a estúpida alternativa de deixarmos pra depois. Cada vez mais, tem as faces coradas quando citam-lhe o nome por aí. Artigo de luxo da atualidade, ajuda, inconscientemente, a construir os faustos de um mundo que até para respirar, o faz apressado. O tempo é irritantemente contínuo e misteriosamente incerto. Já lhe apontaram o dedo na cara aqueles que criticam a sua inexorabilidade. Outros, não sem nenhuma ironia, chamam-lhe “compositor de destinos”, “tambor de todos os ritmos”. Alguns, mais sutis, tratam-no com o intimismo de “mano velho”. Bobagem. Ele não procura companhia, quer apenas ser tempo. Segue decidido, a passos firmes, sem perceber as distorções que faz – ou deixa de fazer. Mal sabe que, por diversas vezes, o seu avanço ininterrupto e fugaz não impediu que permanecessem intactos alguns aspectos da humanidade; não somente os cantos insólitos, como também os mais óbvios e gritantes: todos imunes às mutações que o tempo é capacitado a fazer. O mundo não se decide em relação ao tempo, observa o seu próprio viravoltear e consegue sair ileso às suas manifestações. Daí vem o porquê de o que é moderno ou avançado nem sempre estar aliado às artimanhas temporais. Cheio de manha, esse tempo. Agora mesmo ele ri por mim um riso tímido e quieto por ter passado impunemente enquanto me subtraía horas irreversíveis, fazendo-me pensar nele. Sua definição é o retrato exato da complexidade. Mas talvez seja só porque eu há muito não pensava nele. E talvez também por isso, ele despenque sobre mim com tamanha brutalidade, rindo um riso tímido e quieto.

Esculturas efêmeras do céu:



... Guimarães Rosa

9 de maio de 2008

A Paixão Segundo G.H

Da série: "perder-se também é um caminho"
Um apartamento na cobertura de um prédio. Um quarto de empregada abandonado aos olhos da patroa. Uma mulher presa ao conforto de sua vida. Assim começa “A Paixão Segundo G.H”. O livro nos transporta para os confins do pensamento humano, através do fluxo de (in)consciência da personagem-narradora. Somente duas personagens povoam o livro, mas muitas reflexões povoam o nosso pensamento. G.H é uma mulher como outra qualquer, até o momento em que se depara com o que até então supunha não existir. A partir da demissão da empregada, ela se vê obrigada a limpar o apartamento, função para a qual nunca havia se prestado, mas que despertava o seu interesse, afinal, “limpar é colocar as coisas em ordem” e a organização dava a sensação de segurança de que G.H tanto precisava. A idéia de abrir o quartinho da empregada produzia na mente de G.H as imagens mais sórdidas: julgava encontrar um lugar repleto de traças e tomado pelo mofo. Mas não, o quarto era o recanto de limpeza que G.H julgava existir somente no seu mundo. Ao abrir o guarda-roupa, a calma da personagem é quebrada pela saída de uma barata, que, ligeira, tentava fugir. A partir disso, começa uma enorme viagem pela imaginação da personagem. A barata promoveu a catarse e significou um máximo estado de introspecção. G.H começa o seu processo de encontro consigo mesma, uma espécie de auto-resgate: “Eu procuraria não esquecer que os geólogos já sabem que no fundo do subsolo do Saara há um imenso lago de água potável (...) O deserto tem uma umidade que é preciso encontrar de novo”. G.H nos leva até o seu passado, relatando situações que até então estavam engavetadas em seu pensamento. O aborto de seu filho volta com força total, e a faz reviver a sensação de que estar grávida era como ter um peixe devorando o seu interior. Essa frieza de G.H assusta o leitor, e, no início, projeta-se no modo como a personagem encara a barata. Mas esse distanciamento era, na verdade, alienação, e é dessa constatação que surge em G.H a vontade de transformação. O aparecimento da barata balança os alicerces da vida de G.H, e ameaça derrubar toda a sua segurança, uma vez que a barata simboliza, no livro, a desorganização. “A isso quereria chamar desorganização, e teria segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização, pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro (mundo)”. A personagem tinha medo de desviar do caminho que conhecia, tinha medo de relatar o que aconteceu para o leitor, mas demonstra, desde o começo do livro, a capacidade de segurar na mão imaginária do interlocutor, e relatar com detalhes o acontecido.“É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do que sinto. “É como se eu tivesse uma moeda, e não soubesse em que país ela vale”. Essa coragem evolui até chegar ao seu ápice. Clarice, através de G.H, nos faz supor a vida em dois planos: o da limpeza, representada pelo conforto do apartamento de G.H, e o da sujeira, representada pela barata e toda a sua significação. A personagem vivia mergulhada em sua rotina de apartamento e café, sem atentar para toda a subversão que existia no mundo. A barata a fez ter contato com a imundície, que, sem ela perceber, a levou para um estado de consciência jamais habitado antes. Nesse trecho do livro – assim como em vários outros - há passagens bíblicas muito emblemáticas e recorrentes que associam a barata ao imundo. O próprio nome do livro, cuja palavra “paixão” também pode ser interpretada como o envolvimento profundo do leitor no mergulho da personagem, é uma alusão explícita à Paixão vivida por Jesus Cristo. O contato com a barata era a sua chaga; a reflexão produzida por ele, sua via-crucis; e o ato de comer o inseto, sua crucificação. A porta do guarda-roupa não se abrira por acaso, e não só o contato visual com a barata se fazia necessário, como também o contato mais profundo: o tátil e o gustativo. A sensação primeira de G.H foi de nojo, de repulsa por aquilo que ela via como a representação do que de mais sujo havia no mundo, e foi esse sentimento o ímpeto de força que fez G.H comprimir o inseto contra a porta; depois, aconteceu a identificação, a sensação de que ela e a barata não eram de todo diferentes. “O que nela é exposto, é o que em mim eu escondo”: essa era a diferença essencial entre ambas as criaturas, mas que, na verdade, tornava-as cada vez mais iguais. G.H, então, passou a nutrir um certo sentimento de compaixão pela barata. Enquanto esta agonizava no limite entre a porta do guarda-roupa e o chão no quarto, G.H estendia toda a sua existência no espaço daquele quarto, e agonizava em seu entendimento de si mesma. “Como eu não sabia o que eu era, então não-ser era a minha maior aproximação da verdade”. Comer a barata seria o seu modo de evasão. Era quase uma obrigação, a partir da qual a personagem poderia entender o gosto daquilo que ignorava: “Até então meus sentidos estavam desligados/mudos para o gosto das coisas”. Todas as obras de Clarice prevêem uma mudança nas personagens principais. Por isso é que “A paixão segundo G.H” não é um romance cíclico. A G.H do final do livro não é a mesma que se deparou com o quarto da empregada. Acontece um processo de evolução muito claro, e a personagem afirma: “O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim (...) Como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida. A vida se me é, se me é; eu não entendo o que digo. E então adoro.” Está selada, então, a ressurreição de G.H, que finalmente pode se considerar renascida. A massa branca da barata purificou sua percepção de mundo, e a personagem era agora uma folha em branco. Não era mais uma G.H de apartamento, e sim, uma G.H do mundo.

Fina massa para paladares refinados



O cenário musical brasileiro nunca esteve tão saboroso. O projeto musical 3 na massa mistura vozes femininas à sonoridades que lembram canções francesas dos anos 60, resultando na mais gostosa promessa musical de 2008.
Assim como o projeto paralelo Orquestra Imperial, formado por músicos em rotação, como Seu Jorge, Rodrigo Amarante e Thalma de Freitas, 3 na massa surpreende pela diversidade de composição e influências diversas. A “massa”, como sugere o nome, é moldada pelas mãos hábeis dos músicos da Nação Zumbi, Pupillo e Sucinto Silva, além do músico paulista Rica Amabis, do grupo Instituto. A intenção era compor uma mistura que desse novo sabor à música pop-eletrônica nacional, abusando de barulhinhos e efeitos sonoros diversos.
O recheio é formado pelas composições de Rodrigo Amarante, Lirinha, Jorge du Peixe e outros. Suas letras salpicam o refinamento das canções. Recheadas de segredos amorosos, frustrações e experiências típicas do universo feminino, elas dão o tom da inocência, mas sem banalizar. Já o tempero fica por conta das participações femininas mais que especiais, que juntam nomes como Thalma de Freitas, Céu, Leandra Leal e Nina Becker, entre tantas outras. Nessa mistura, há ainda um contato intercontinental: Nina Miranda, a vocalista brasileira da indefinível banda inglesa Smoke City, também dá a sua contribuição, na faixa “Morada Boa”.
3 na massa é uma colagem musical; utiliza influências externas, mesclas de hip-hop e jazz, sem negar o encantamento da boa música brasileira. Depois de estrear no My Space, eles lançam seu primeiro cd, "Na confraria das Sedutoras", confundindo qualquer um que possa pensar em colocar rótulos em sua sonoridade. A textura do disco é marcada pelas distorções eletrônicas combinadas com o baixo e a bateria dos músicos da Nação Zumbi. Essa combinação entre o eletrônico e os instrumentos tocados cria uma harmonia sonora digna de se ouvir com os olhos fechados.
O peso dos metais convive perfeitamente com as distorções, como em “Sem Fôlego”, interpretada por Lourdes da Luz, da banda paulista Mamelo Sound System. No início da canção, nos acostumamos com os efeitos eletrônicos; quando de repente, os intrumentos tocados invadem a música, além do vocal marcante e da levada hip-hop, sem que isso cause estranhamento. Neste álbum, o inusitado torna-se comum, e a naturalidade guia a cadência das músicas.
Definir seria limitá-los: 3 na massa transcende os limites da música facilmente cantarolável. A sensualidade das vozes femininas provoca sem vulgarizar. Exemplo perfeito disso é a faixa “Certeza”, cantada pela atriz e cantora Leandra Leal; sua narração em francês nos faz visualizar uma lolita francesa, e é digna de fascínio.
A maior beleza do disco está nas diferenças entre uma faixa e outra; em uma, um molho picante e fervente; em outras, uma sutil pitada de açúcar. Destaque para a inocente “Tatuí”, que na voz de Karine Carvalho lembra uma frustrada paixão adolescente; ou ainda para a sensualidade agressiva de “Pecadora”, embalada pela voz fantasiosa de Simone Spoladore. Há faixas em que a canção adquire tom de narrativa, como em “Certa Noite”, na voz de Alice Braga.
Esses contrastes fazem do disco um delicioso aperitivo para todas as horas. 3 na massa tanto poderia ninar o sono de um bebê, quanto servir de trilha sonora a um lascivo caso de amor. A consistência dessa massa está na criatividade do grupo, que é, antes de tudo, uma conjugação perfeita do paladar musical de cada integrante.

A extrema ousadia embrulha essa mistura sonora em papel especial, e o presente fica para os nossos ouvidos. Nada mais agradável.

22 de julho de 2007

Imaginação, imagine ação.


- Da percepção e outras coisas que só se vê quando se olha pra dentro.
Poluição. De monóxido de carbono, de multidões e de pensamentos.
Não havia um canto sequer ileso da má conduta do ser humano, e nada que fosse fitado naquele momento seria completamente limpo. À parte isso, as pessoas pareciam não se importar com o acúmulo de descaso nas esquinas e desfilavam pelas calçadas prestando atenção em seu próprio umbigo. Despreocupação desvairada, desprovida de qualquer humanidade. As ruas se cruzavam, mas as pessoas, não. Nada estava interligado. Uma esquina era totalmente alheia à outra. O poste mijado por bêbados cambaleantes era totalmente alheio ao outro poste enfeitado por grafites e mosaicos. Era cada esquina por si, cada poste por si, cada um por si, e as putas do Parque paqueravam tranqüilas enquanto o menino comia pipoca. Constatação inusitada, que me valeu alguns minutos de estranheza. Mas sentia-me bem apenas por notar a grandiosiodade que parecem ter as coisas quando ainda são inéditas. Depois vai diminuindo, fenecendo, até se tornar algo tão pequeno que sempre pareceu estar ali. É sempre assim. Os barulhos se espalhavam no ar como pedaços de um morango num liqüidificador e iam se instalar justamente na minha cabeça, enlouquecendo-me. Profecias, promessas, premissas, discursos daqueles que precisavam gritar para não parecerem loucos sozinhos: partilhar a loucura com o mundo e enlouquecê-lo. "Filhos-de-uma-peste", dizia a mulher com poucos dentes e pouca simpatia quando os transeuntes viravam-lhe a cara. Talvez a falta de simpatia fosse ocasionada pela falta de dentes, mas havia naquela expressão e naquele falar-quase-gritando uma mistura de revolta, tristeza e desdém que as pessoas continuavam a não ver e não escutar - se é que não fingiam uma das duas coisas. A cena não foi vista pela primeira vez, nem pela segunda, muito menos pela terceira, mas foi vista pela vez em que eu me envolvi. Foi quando constatei que se pode ficar subnutrido de humanidade, e essa constatação foi triste. O que pintava uma interrogação no entendimento era a contradição. Imensas construções inundadas por dinheiro, que é pra burguês nenhum botar defeito, e a cidade inundada de sujeira, que é pra mendigo nenhum tirar proveito - "êta, globarbarização". De repente, o lugar todo olhou para mim, como se quisesse que eu olhasse para outra direção e focasse minha atenção em alguma coisa feliz, afinal, havia beleza também, por todos os cantos, beleza demais. Na espontaneidade, na descontração, na intenção de inundar uma estação de metrô de linguagem, música e poesia; na capacidade de viver o momento, nas cores das coisas que aconteciam ao mesmo tempo. O batuque acontecendo ali e o comércio barulhento acontecendo lá. Uma despreocupação diferente da anterior, desprovida de qualquer maldade. Arte exposta nos muros, manifestações culturais que falavam por si mesmas. Arte barata, que diverte mas não basta. E arte abstrata, que invade e não maltrata. Era como uma colcha de retalhos de tudo o que se pode chamar de cultura: cada um escolhia a que melhor lhe cobrisse. Não é que tudo ali fosse bonito, mas o que era bonito era tão bonito que fazia o feio se livrar de uma parte da feiúra. E o sorriso se fazia soberano - "a única salvação do ser humano é a alegria".

13 de julho de 2007

Minha cabeça já esteve mais nas estrelas
Agora eu gosto mesmo é de pés
Sentir o pulsar do chão
Adivinhar o encanto
Seguir pelos cantos
Entoar num canto
O descuido que é viver
Deixar-me estar assim
Simples como tudo enfim
Que a complicação só há
Se a gente deixa ela estar
Saber que a vida é coisa indecifrável
E não saber, enfim, de nada
Mas desconfiar de muita coisa
Que os anos nos tragam rimas,
Não rugas.

5 de julho de 2007

A fatia mais doce


Eu cronico
Tu cronicas
Ele
crônica (II)

- Cacete! - eu pensei. As coisas acontecem de um jeito estranho.
Logo hoje, hoje mesmo, que me perguntei por onde andava aquele sorriso. Despontou sua voz do outro lado da linha, ávida e urgente. E eu, de súbito silêncio telefônico, pronunciei as primeiras palavras.
Perguntei dos últimos acontecimentos, do final de semestre, dos projetos engavetados, do cachorro. Ele perguntou da vida como andava, dos bares, das novidades, e mais tarde dos planos para preencher aquela noite. Disse-me com certa melancolia estudantil que corria sérios riscos de enlouquecer se ficasse estudando mais uma noite, e sugeriu que fizéssemos alguma coisa. Checou os cinemas, os teatros, os bares, e não havia nada além de peças teatrais infantis do outro lado da cidade, filmes hollywoodianos que ofendem a inteligência e músicos estranhos que atraem multidões igualmente estranhas; isto somado ao fato de que os locais em questão não foram projetados para comportar multidões. "Não temos balão de oxigênio". Decidimos por usufruir o seu imenso acervo cinematográfico, que comporta desde os clássicos até os excessivamente modernos. Optamos pelo filme que assistimos quando nos conhecemos, fizemos promessas de não cometer suicídio coletivo pós-filme, e combinamos o horário: 10 horas. Eu tinha cerca de uma hora para chegar a uma conclusão cabível e humanamente aceitável sobre o por quê dessas coisas acontecerem comigo, e dessa maneira específica, essa que me faz sentir totalmente impotente frente o desenrolar do meu próprio enredo, sem sequer escolher os personagens da trama. Naqueles quinze para as dez da noite, eu era toda calça jeans, camiseta, par de tênis e bala de menta, carregando um pacote de chocolate para adoçar o filme. Fui pelo mesmo caminho daquele dia, para diminuir as chances de me perder. Me perdi. "E eu pensando que me lembrava de todos os pormenores daquele sábado", lamentava para meus botões. Acabava de constatar: não lembrava. Fui parar numa rua desconhecida que me lembrou alguma cena de livro. Vi de longe um homem fechando o portão de uma casa e fui logo perguntar a ele o quão longe eu estava da rua Oliveira-alguma-coisa (sou péssima com explicações), ao que ele, todo bonachão, chamou sua mulher que estava lá dentro, afinal, como disse o tal homem "mulheres costumam ser mais sensatas". Ele e o filho me olhavam com cara de paisagem, como que com vergonha de não saberem explicar uma coisa tão simples para quem mora ali. Chegou a mulher, e antes que eu dissesse qualquer coisa, foi logo me acompanhando até a rua que ela suspeitava ser a que eu procurava. "Eu sei como é, sempre me perco lá pelas bandas de Jardins, aqui estou acostumada", ela me dizia com tanta simpatia que fiquei com vontade de dar a ela o chocolate que guardava na bolsa, mas me contive. E ela continuava: "...mas é bom, assim já trato de perder as calorias da pizza que comi, e não me sinto culpada". Duas quadras depois e já pude avistar a simpática e familiar casa amarela. Agradeci com muitos sorrisos e subi a rua respirando forte. Logo em frente, um rapaz e uma moça, conversando. Por um momento, pensei em cumprimentar, mas eles anteciparam os meus pensamentos e me lançaram um simpático aceno. Constatei minha excessiva cara-de-pau e ri em pensamento. Chamei, e já fui prontamente respondida - "Ei!" - Eu ri de novo, mas dessa vez não em pensamento. Ele passou da porta para o corredor numa rapidez que eu nem tive tempo de preparar uma cara apropriada ou disfarçar o meu calor e meu fôlego escasso - "Filho-da-mãe", pensei. Foi abrindo o portão sorrindo, tudo muito rápido, e me recolheu para dentro num abraço apertado cheirando a banho recém-tomado. Ah, era bom ver aquela casa de novo. Supliquei por água e fui cumprimentar a Tina - "Boa noite, pretinha!": era o cachorro mais humano que havia, com imensa sinceridade no olhar e latido honesto. Perguntei pelos outros que também viriam, mas vi que seríamos nós dois apenas. Lancei um olhar demorado por todo o ambiente e notei a descontração: as almofadas coloridas e as partituras espalhadas pelos cantos conferiam ao lugar um ar de "sinta-se à vontade". Puxei uma cadeira entre as tantas que enfeitavam a sala e, entre um assunto e outro, pude reparar no seu sorriso escancarado, significando um muitíssimo bom humor. Tratou de pegar cerveja na cozinha, e voltou se justificando, "Só uma está gelada, por enquanto". Sentamos e “colocamos as mentiras em dia” – como costumávamos dizer – e, como de costume, me senti burra quando li os seus trabalhos da faculdade espalhados pela mesa. Metodologia pra cá, lei não-sei-do-quê pra lá, e os estudos todos newtonianamente organizados numa pasta azul-piscina. Me mostrou as várias prateleiras entupidas de vinis, e em meio àquela gigantesca organização, me deparei com todos os tipos de sons, passando pela prateleira entitulada "tranqueira", onde ele acomodava as cafonices sonoras da vida. Alguma delas tocava na vitrola, e ele se sacudia histericamente, dizendo que seus filhos e netos ouviriam aquilo um dia. O riso era constante, tinha me esquecido do quanto somos exatamente nós mesmos quando nos juntamos. Aquele falar onomatopéico e estendido e o modo de balançar a cabeça em sinal de negação já eram meus velhos conhecidos; o que tinha ali de novo era o efeito interessante que aqueles olhos azuis produziam em mim, e é engraçado como isto dito assim parece banal. Falamos de tudo, chegamos até a planejar um experimento cientificamente monitorado para testar os diferentes sabores de cerveja. "Esta aqui não é boa, mas não é um clássico da ruindade, fico grato apenas por sua existência etílica", e brindava no ar, batendo num copo imaginário. Mas eu não conseguia me desligar do azul, era magnético. Depois de alguns desvios de planos e resistência por parte dele - "não quero amargurar os ares"- arrumamos o sofá e as almofadas, e nos resumimos à meias e travesseiros embolados. Combinamos que em alguns momentos falaríamos algumas bobagens, só para não chorar. Joel e Clementine conversando de lá, e nós de cá, imaginando como seria se cada cena do filme estivesse acontecendo com a gente - "o que faríamos?". Como eles eram perturbados! Uma perturbação beirando a insanidade, mas eram um pouco de nós, em vários momentos, embora a loucura de Clementine ofuscasse a normalidade de Joel. Parecíamos dois críticos de quinta achando defeito em cada detalhe (de modo que ficava impossível deixar-se envolver pela história dramática e ter desejos suicidas a posteriori) e, alguns risos mútuos depois, já éramos dois seres esparramados entre as almofadas com os braços entrelaçados. O filme pela metade, e tudo estava perto; foi inevitável o encontro dos rostos também. Se fosse diferente, perderíamos toda a naturalidade, e a perda da naturalidade entre duas pessoas é quase um crime. Os beijos e os abraços oscilavam entre as risadas e as conversas pseudo-filosóficas. O assunto foi abrangente, chegamos a temas perigosos. Ele me contou das decepções passadas, da sua falta de capacidade para adotar a solução mais simples, dos sumiços que são necessários, vez ou outra, e da dificuldade de se ser homem num meio tão gay. "Minha vida é complicada, sabe...", me dizia de tempos em tempos. "Eu fico meio amargo, às vezes, e não quero envolver ninguém nessa minha amargura, ela é só minha." E eu ouvindo, estática como um poste. Esparramei naquela sala todas as minhas teorias sobre as pessoas, sobre os vários de nós em nós mesmos, sobre os níveis de conhecimento que se pode ter sobre alguém, e só então me ocorreu "O melhor está nas entrelinhas", como dizia Clarice. Acho que se trata exatamente disso: o melhor de nós está nas entrelinhas, não no que está exposto, escancarado, óbvio. "Você é legal pra cacete!", dizia. Era bom trocar delírios e conflitos internos; mas aí, nos lembrávamos de que era sábado, de que estávamos ali, de que as coisas só doem porque nós queremos (vide a tão famosa frase drummoniana "a dor é inevitável, o sofrimento é que é opcional") e mandávamos tudo para o inferno, resgatando os beijos, abraços, assopros e suspiros de onde estes tinham parado. Éramos dois bobos discutindo as possibilidades de estar só e em companhia. Nunca o entendi tanto: ele é mais do que livre, precisa de espaço para se estender, e conquista amigos que de longe entendem tudo isso. Foi então que comecei a entender que nas vezes em que sofri, foi por esperar pessoas incondicionais - embora não acredite em coisas incondicionais, tampouco em coisas altruístas, afinal, até mesmo a moça que me ajudou a chegar na casa dele, não o fez por mim, mas por ela. Por ela, e por sua pizza. A hora avançava e eu tive que ir, esse momento foi dolorido, eu não queria ir. Estávamos sentados com as costas grudadas e as mãos dadas, como naqueles filmes em que amarram o mocinho e a mocinha de costas um para o outro. Era digno de uma fotografia. Abrimos o portão, ele lembrou de caçar uma camiseta qualquer, e me acompanhou pelo caminho, embora muito lhe custasse abrir os olhos naquela claridade de dia amanhecido. Percorríamos aquelas ruas com a calma de um canto gregoriano, desviando dos raios teimosos do sol que insistiam em nos cegar, . Ele ria, e me dava o perfil completo de cada morador dali, acrescendo algumas mentiras pra dar mais complexidade. Avistei a já lendária “Mirtes”, de quem ele já me falara tantas vezes e que de longe podíamos ver, no bar da esquina, de costas, vestido decotado, lavando a louça dos bêbados.
- E eu pensando que ela era centenária!
- Imagina! Ela está toda conservada.
- Já pegou?
- Não... Mas só porque ela não quis.
Muitas risadas. Não queria dizer nada tão clichê quanto pedir para não desaparecer por aí, não era necessário, e de fato não foi dito. Ele me abraçou. "Me desculpa pelo excesso de mim mesmo?" - me entregando uma flor amarela do canteiro mais próximo - , ao que eu respondi "Concordo com a Clarice", e ele sorriu. Não era um sorriso de frente, nem era um sorriso de lado, era o presente livre de passado e sem obrigação de futuro. Uma história que não devia explicações: era impunemente doce, e leve como a flor com cheiro de baunilha que eu segurava nas mãos. "Não desmaie no caminho, esse cheiro é tóxico". Boas lembranças são doces pedaços de vida.