14 de janeiro de 2007

Saudadezinha inconseqüente

Passeando por aí Eu comigo mesma E mais ninguém Pra ficar tudo bem Ofuscar os problemas Tornar as dores pequenas Esquecer que os momentos Se convertem em pensamentos Eles são como bolinhas de metal pesado Girando pra todo lado Agora vê se te vira e agüenta A confusão que se faz Na caixinha de massa cinzenta Que faz pesar O que era leve Leve Me faltam músculos morais Pra carregar tantos ais Ah, que bobagem Logo eu, que não confundo Amor com miragem Pergunto à nuvem negra Quando é que o sol vai brilhar E a mim mesma Se minha razão vai voltar "Quem não tem visão bate a cara contra o muro" Sabe Eu nunca fui Alguém de muitas certezas Mas tem alguma coisa Por trás desses olhos Que me aflige E é fulminante A vontade de estar Em qualquer lugar Que você lance o olhar E já não mais cabe Tanta aflição Por não saber Por não ver Por temer Que tantas cores Se desbotem assim Pra mim Deixando tudo aqui dentro Em absoluta revolução Ah...certas imagens São capazes De congestionar um coração.

11 de janeiro de 2007

Fome de amor cortês

Com a palavra, Arnaldo Jabor:
(...O amor deixa muito a desejar) Fui ver o lindíssimo filme do Pedro Almodóvar, o Fale com Ela, e saí pensando num conto da Carson McCullers, em que um homem conta que, antes de amar de novo uma mulher, ele estava aprendendo a amar as pedras, as árvores, as nuvens... Nesse grande filme de Almodóvar, vemos amores raros, feitos de entrega, feitos de compaixão, como uma "doação ilimitada a uma completa ingratidão", como escreveu Drummond, aliás, o poeta do amor impossível, que é o único e verdadeiro amor. Mas eu me pergunto: onde anda o amor? Até isso o mercado estragou? Sim. O amor já teve um toque sagrado, a magia de uma inutilidade deliciosa, já foi um desafio ao dia-a-dia que nos tirava da vida comum. Hoje, o amor, como tudo, está perdendo a transcendência. Não existe mais o amante definhando de solidão, nem Romeus nem Julietas, nem pactos de morte, não existe mais o amor nos levando para uma galáxia remota, não existe mais a simbiose que nos transportava a uma eternidade semi-religiosa. O amor tinha uma fome de bondade, de compaixão pelo outro, de proteção à pessoa amada. Isso está acabando. O amor já foi analisado por todas as ciências, a psicanálise mapeou as loucuras que estão sob sua poética, o ritmo do tempo atual acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar no mercado. O amor pode atrapalhar a produção. Por isso, o filme de Almodóvar é tão belo e oportuno. Temos de fazer filmes assim, cheios de amor, sem efeitos, sem denúncias. Se eu, um dia, filmar de novo, será para celebrar o silêncio dos amantes ou a beleza do inútil. O amor perdeu a gratuidade, as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que não sentem mais. O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar, não tem mais a utilidade do sacrifício pelo "outro". O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de "olhos de ressaca", nem nas "pernas de Fulana", nem temos as bocas beijadas por amantes "tutti tremanti", nem o formicida com guaraná. Não se diz mais: "Deus sabe quanto amei!...", mas "Deus nem sabe quantos (as) amei..." A publicidade devastou o amor, falando na "gasolina que eu amo" ("Shell que j'aime"), no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir. Como comer todas as moças da lingerie e do xampu, como atingir um orgasmo pleno e definitivo? A sexualidade total, por si só, levaria a uma assexualização desértica. A sexualidade é finita, não há mais o que inventar. Já o amor, não... O amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes. Amor e sexo. Mas, hoje o mercado exige a satisfação total no amor ou o dinheiro de volta. Como isso é impossível, deriva para o sexo ou para a sedução. O amor passa a buscar não mais uma entrega, mas um domínio. O amor vira um objeto de consumo, fast-love, com obsolescência programada para durar pouco. O amor deixa muito a desejar. Em geral, o amor existe hoje como uma espécie de adoçante para justificar, legitimar uma tesão ou uma conquista. Os amores duram três edições de Caras. Os casais se permutam num troca-troca rápido e quantitativo. As próprias mulheres estão virando dom-juans. Vejam o périplo de jovens atrizes que vão comendo, um por um, os modelos que surgem nas revistas, elas, que deviam se manter damas inatingíveis para pálidos quixotes românticos. Estamos com fome de amor cortês, num mundo em que tudo perdeu aura. O terrível bombardeio que a cultura americana está fazendo nos sentimentos é invisível, mas é pior que as bombas contra o Iraque. A cultura americana está criando um desencantamento insuportável na vida social. Tudo é tolerável, num arrasamento de mistérios. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, sem uso, vejam as mulheres amontoadas na internet, nuas, com números - basta clicar e chamar. Estamos virando coisas. Precisamos aprender a amar de novo as pedras, as árvores, as nuvens, até chegarmos a nós mesmos.

Abre parênteses

Dia Logos: Hoje, numa loja qualquer: - Procura uma P aí. - Hum, acho que não tem. - Tem que ter... - Não tem, tô te dizendo, só G. - Claro que tem, né, ninguém quer ser G!
A menina tinha uns sete anos. Depois de finalmente despejar descaradamente o meu riso contido, fiquei com uma sensação ruim. É meio realista demais pensar que a menina, no auge dos seus mais ou menos sete anos de existência, já tem essa idéia da imagem que todo mundo quer ter. Essa imagem que todo mundo quer ter porque um belo dia alguém decidiu estereotipar a beleza e nos enfiar goela abaixo. No tempo das nossas mães, eram só bonecas, bonecas com rosto e roupa de boneca - aquelas pra pegar no colo e dar comidinha, isso quando podia tirar da caixa, porque "suja!". Hoje o que figura as vitrines e os desejos pueris femininos (isso quando elas descobrem que não dá pra vestir e pentear um aparelho de mp3, claro) são as barbies, embaladas e plastificadas em seus trajes diário-noturno-esportista-empresário-cinegrafista-veterinário-eaputaqueopariu, incluindo a puta, aliás. Fiquei imaginando a menina, que deve ter umas duzentas e cinquenta barbies, crescendo e se tornando uma dessas escravas do culto à imagem externa. Terrível: notei que também se pode ficar subnutrido de inocência. E o mundo vai ficando feio. Fecha parênteses, por favor.

10 de janeiro de 2007

Pra não dizer que não lembrei das flores.

Nota sobre Apesar de você Por Humberto Werneck:

1968 , Rua Maria Antônia, prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. A porta da sala de aula é aberta como se tivesse levado um coice e aparecem três soldados armados com metralhadoras. Diante de 200 alunos, a professora de Ciências Sociais, Jessita Nogueira Moutinho, de 24 anos, encara bem os soldados e, com voz firme, pergunta:

- Vocês são meus alunos?

-Não, mas é que estamos procurando uma pessoa e...

-Isto aqui é uma sala de aula e aqui dentro só ficam o professor e alunos. De maneira que vocês podem se retirar. Se vocês querem pegar alguém não será em minha aula. Com licença, por favor.

A professora indica a porta, os soldados saem e esperam do lado de fora. Quando a aula termina, os soldados entram de novo, mas o tal aluno, claro, já estava longe.

No início de 1970, Chico volta ao Brasil em meio a um estardalhaço (organizado por recomendação de Vinícius), que incluía especial para a Globo, show no Sucata e o lançamento do LP Chico Buarque Vol 4. Mas o Brasil não era aquele descrito nas cartas de André Midani. A tortura e desaparecimento de pessoas contrárias ao regime do general Médici eram uma constante. O ufanismo do ditador ("Ninguém segura este país") aderia aos carros ("Brasil, ame-o ou deixe-o", quando não "Ame-o, ou morra!"), e a algumas canções populares ("Ninguém segura a juventude do Brasil"), tudo isso no ano que a seleção canarinho conquistaria o tricampeonato mundial. Chico fez "com os nervos mesmo" Apesar de você e enviou para a censura certo de que não passaria. Passou. O compacto com Desalento e Apesar de você atingia a marca de 100 mil cópias quando um jornal insinuou que a música era uma homenagem ao presidente Médici. A gravadora foi invadida, as cópias destruídas. Num interrogatório quiseram saber de Chico quem era o VOCÊ: "É uma mulher muito mandona, autoritária", disse ele.

(Muito bom, Chico! Muito bom.)

...E sobre Samba de Orly:

Juntos, viram o homem pisar pela primeira vez na Lua, em julho de 1969. À distância, acompanharam o surgimento da luta armada no Brasil, o primeiro seqüestro de um embaixador estrangeiro para obter a libertação de prisioneiros políticos, o dramático esfarinhamento da esquerda brasileira em miríades de grupúsculos. Em novembro, Toquinho resolveu voltar. No último dia, foi ao apartamento de Chico e lhe mostrou um samba ainda sem letra. Só então teve coragem de contar que estava partindo. "Fiz essa música de saudade mesmo", disse, "vou embora amanhã". Era o Samba de Orly, com todo aquele clima de exílio, de impossibilidade. Toquinho conta que Chico fez na hora os versos finais:

E diz como é que anda aquela vida à toa e se puder me manda uma notícia boa

Bem depois, quando estava preparando o LP Construção, Chico convidou Vinícius para ajudar na letra. Três dos versos que o poeta escreveu:

pede perdão pela omissão um tanto forçada...

8 de janeiro de 2007

"Não me leve a mal, me leve apenas para andar por aí"

O tempo, nublado A cor, cinza Os humores, eufóricos A música, alta Horas a menos Ares amenos Pessoas, muitas Dinheiro, pouco Madrugada adentro Mundo afora A rua, entupida Os copos, cheios A alma, vazia O clima, leve Pensar, fato Sentir, ato O encanto, exato Os silêncios, intencionais O cheiro, característico O gosto, velho conhecido Os abraços, bem vindos O riso, uníssono Os devaneios, contínuos Seriedade, onde? Importância, importa? Doçura, eu vi, eu vi! O tempo, breve As cores, todas Aqui Ali Pra cá Pra lá Compaixão - ei! - Com paixão. Abre aspas, Guimarães Rosa, 'O grande sertão veredas' : "Entendi aquele valor. Amizade nossa ele não queria acontecida simples, sem encalço. A amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor. Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela - alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão." lindo de doer isso, cara!

5 de janeiro de 2007

Vem cá.

"Considerando a frio, imparcialmente, que o homem é triste, tosse e, sem embargo, se alegra em seu peito colorido; que a única coisa que faz é compor-se de dias; que é lôbrego mamífero e se penteia... Considerando que o homem procede suavemente do trabalho e ressoa chefe e soa subordinado; que o diagrama do tempo é constante diorama em suas medalhas e, semi-abertos, seus olhos estudaram, desde distantes tempos, sua fórmula famélica de massa... Compreendo sem esforço que o homem fica, às vezes, pensando, como querendo chorar, e, sujeito a estender-se como objeto, se torna bom carpinteiro, sua, mata e depois canta, almoça, se abotoa... Examinando, enfim, suas contraditórias peças, sua latrina, seu desespero, ao terminar o dia atroz, apagando-o... Considerando também que o homem é na verdade um animal e, não obstante, ao voltear, me dá com sua tristeza na cabeça... Compreendendo que ele sabe que o quero, que o odeio com afeto e me é, em suma, indiferente... Considerando seus documentos gerais e examinando com lentes aquele certificado que prova que nasceu muito pequenino... faço-lhe um sinal, vem, e lhe dou um abraço. " (César Vallejo, tradução por Ferreira Gullar.)

30 de dezembro de 2006

Que as músicas toquem, que os corações amem, que as mãos abracem, que os ouvidos escutem, que a bebida não esquente na mesa, que palavras não sejam ditas em vão, que os átomos continuem indivisíveis, que os homens criem nova consciência, que a camada de ozônio seja preservada, que as geleiras continuem onde estão, que o sistema solar ganhe mais personagens, que Chico continue cantando, que Gullar escreva, que as segundas-feiras sejam breves, que a felicidade não caiba, que os olhares sejam profundos, que os sorrisos sejam verdadeiros, que novos temperos sejam inventados, que os jornais digam a verdade, que Heloisa Helena compre roupas, que se extingua a estupidez, que a primavera mude as coisas, que a ternura seja muita, que as contas sejam poucas, que digamos mais "bom dia", que caminhos se cruzem, que bocas se encontrem, que a fome não seja muita, que a sensibilidade não seja pouca, que poesias emocionem, que a chuva caia, que o sol se ponha, que a beleza exista, que seja doce. Que assim seja. Um brinde aos 365 novos dias que dizem "olá". Em outras palavras: "Mash-ups, tecnologias, festas, cervejas, discos, jazz, indie rock, soul brasileiro, escritos tortos, amigos, Semana 3 cinco anos (vamo aí, Carlos, agitar uma parada relativa), panamericano no Rio,noites em claro, viagens, começos, canções sem fim, filmes deslumbrantes, Vila Madalena, exposições, economia neoliberal pro buraco, desenvolvimentismo pra trouxa vindo à tona, libertadores, paulista com final, don't stop the music, noites fora de casa, noites em casa, livros, teatro, poesia, vinho, nouvelle vague japonesa, van morrison, são paulo futebol clube, caixas de som, sorrisos, risadas, pulos em mar, rios que passam em meio a vidas, samba, dance dance dance, cidade universitária, studio sp, mãos para cima sem ser assalto, união, saúde, tardes com leseira, preguiça esporte clube (só para variar um pouquinho), Cat Empire, shows, Radiohead, KILO (eu vou Zé, eu vou), mesas de bares, franz café de fim de noite, champions league, walter lima jr, tim festival. ufa. e isso é só 10%. Vem, 2007. Vem. Que seja bom pra todo mundo." De alguém modesto demais para admitir que isto teve o pingo no i de poesia. Né, Ric? http://partidabr.blogspot.com/

21 de dezembro de 2006

Se aquela rua, se aquela rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante e gravar numa lembrança fotográfica. Ah, se mandava. ... !

Simpatia não é nada banal, dá dizia Casimiro de Abreu.

Simpatia - é o sentimento Que nasce num só momento, Sincero, no coração; São dois olhares acesos Bem juntos, unidos, presos Numa mágica atração. Simpatia - são dois galhos Banhados de bons orvalhos Nas mangueiras do jardim; Bem longe às vezes nascidos, Mas que se juntam crescidos E que se abraçam por fim. São duas almas bem gêmeas Que riem no mesmo riso, Que choram nos mesmos ais; São vozes de dois amantes, Duas liras semelhantes, Ou dois poemas iguais. Simpatia - meu anjinho, É o canto de passarinho, É o doce aroma da flor; São nuvens dum céu d'agosto É o que m'inspira teu rosto... - Simpatia - é quase amor!

20 de dezembro de 2006

Sensibilidade.

Meu lado nerd convicto pede licença para transferir pra cá um texto do vestibular da Unesp deste ano, que achei de uma sensibilidade! Tão rara que chega a doer. Me afetou. Érico Veríssimo, Incidente em Antares, 1974:
"Fez um novo silêncio. De fora vinham vozes humanas. De vez em quando se ouvia o zumbido do elevador do hospital. Tombou uma pétala de uma das rosas. Quitéria soltou um suspiro. Zózimo agora parecia adormecido. Tibério pensou em Cleo com uma saudade tátil. - Neste quarto, Tibé - disse Quitéria - dentro destas quatro paredes, nós temos falado em assuntos em que nunca tínhamos tocado antes. Nossa morte, por exemplo... - Pois não lhes gabo o gosto - resmungou Tibério. - Tibé, tens fama de valente. Vives contando bravatas, proezas em revolucões e duelos...patacoadas! No entanto, tens medo de pensar na tua morte, tens horror a encarar a realidade. - Tirou os óculos, limpou-lhes as lentes com um lencinho, e depois prosseguiu: - Que esperas mais da vida? Os nossos filhos estão criados, não precisam mais de nós. Mais que isso: não querem saber de nós, de nossas idéias, de nossas manias, de nossa maneira de pensar e viver. Acho que todo homem vê sua cara todas as manhãs no espelho, na hora de se barbear. Que é que o espelho diz? Diz que o tempo passa sem parar. E que essas manchas que a gente tem no rosto (tu, eu, todos os que chegam à nossa idade), essas manchas pardas são bilhetinhos que a vida escreve na nossa pele. Eu leio todos os dias esses recados, mas tu, Tibé, tu és analfabeto ou então te fazes de desentendido."
E então eu fiquei com essa idéia de "saudade tátil" na cabeça, não sai mais.

11 de dezembro de 2006

Café e bobagem.

Tem dias que a gente senta e toma coragem Tem dias que a gente senta e toma uma cerveja Tem dias que a gente senta e toma uma decisão Tem dias que a gente senta e toma um tapa na cara Tem dias que a gente senta e toma qualquer coisa... Olho para baixo, e você no meu café.

1 kg de sentimento não-perecível

Foto: Guimarães Rosa, O grande sertão: veredas (Estação da Luz) Definições pra cá Definições pra lá E eu que só queria um lugarzinho pra me encostar Desses aconchegantes, acolhedores Como abraço com cheiro de banho Me recolhe pra dentro De onde quer que seja E me conta de você Mesmo que não seja interessante Nem sempre podemos ser interessantes Na maior parte do tempo nos resumimos a um ser de saco-cheio, cansado, querendo explodir, ou querendo um lugar Pra se encostar... "O melhor está nas entrelinhas" Acredito nisso Engoli essas palavras e vomitei-as em forma de certeza Certeza de que é assim, é simples. Não precisa ser de outro jeito Mas as definições gritam! Definições inteligentes, profundas, retóricas A vida dispensa a metafísica? Mas se o amor fosse comparado a coisas desse mundo teimoso Trataria de definí-lo como algo bem pragmático, que é pra perder a graça E eu parar de querer definí-lo Logo eu, que sempre carrego grandes quantias Nunca me dão troco E eu saio só com o sorriso amarelo E com uma mão na frente, e a outra atrás. Essa bobagem não satisfaz Não falo de coisa muito séria, não Aquela coisa que põe aliança e apresenta para os tios Não. Apresenta para a alma, que já fica tudo bem. Procuro doçura nos potes de açúcar - adoçante não, obrigada. Com a acidez da vida a gente se entende Adoça daqui, adoça de lá E eu que só queria um lugarzinho pra me encostar.

4 de dezembro de 2006

Quanto nos lembramos das pessoas? Da primeira impressão? Uma ou outra coisa que ouvimos, é assim como guardamos as caras, sempre caladas. Mas é incrível como reconhecemos uma expressão. A memória embaça, as caras perdem linhas e contornos, mas existe uma coisa que não tem nome, não tem forma, e a isso chamo expressão. Quando eu digo que não confio em retrato é porque o momento registrado é tão irreal quanto o tempo (e se o tempo não pára...), e tão irreal quanto o fato da pessoa que registra a foto não sai no momento. Talvez aí esteja a graça. Gosto demais de fotografia, sou totalmente suspeita para opinar. Mas e você, como gostaria de se lembrar de alguém?
Vida: qualquer coisa diferente de obrigação. "Ah, isto é que é vida", dizem as pessoas quando saem de férias... Esperando pra poder dizer isso, e com um enorme sorriso no rosto! "Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Escreva por algum motivo, mas o faça. Ou escreva só para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite, se quiser."
Outro entre os tantos que traduzem os meus deliriozinhos internos, da série "Arrumar pastas pode te fazer redescobrir coisas interessantes": Carlos Drummond de Andrade: "O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa. Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando. Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro. Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeira, nas gretas do muro, nos espaços vazios. Até agora não encontrei nada. Ou, encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada. Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda. Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível. Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Neste dia vou rir de todos. Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder."

26 de novembro de 2006

E aqui, dois textos muito antigos que pedem bis: "E tudo o que ele dissesse sobre a verdade sobre o bem e sobre o belo não significava mais para a maioria das pessoas do que uma rosa para uma vaca. Cansada dessas histórias fantásticas mirabolantes sobre bem e mal quando um se deixa inexistir para dar lugar ao outro Vida: que pode ser triste, mas o triste é impossível E tudo isso só porque o oposto deixou de existir quando da felicidade nasceu a tristeza e da tristeza, a felicidade Assim intercalados. E nada mais no mundo teve nome quando a sombra comprou sapatos vermelhos de verniz e nunca mais parou de dançar." Albert Béguin.
Eu ando com saudades do pôr-do-Sol, logo dele, que está sempre ali.

Para rir no mesmo riso.

"...Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar. " Clarice Lispector

19 de novembro de 2006

Com a palavra, Rubem Alves: Pipoca "As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido? Pois tem... A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas! E o que é que isso tem a ver? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. "Morre e transforma-te!" — dizia Goethe. Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...
"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso o que aconteceu".
"Eu, quando olho nos olhos sei quando uma pessoa está por dentro ou está por fora quem está por fora não segura um olhar que demora... de dentro de meu centro este poema me olha." - Paulo Leminski Com um brilhozinho nos olhos, tentamos saber para lá do que se pode achar.